Vox nostra resonat

A guitarra na Galiza

O Biedermeier galego. Pleito por uma guitarra

Isabel Rei Samartim
jueves, 15 de abril de 2021
Capa do Pleito Ozores-Baradat. Arquivo do Reino da Galiza. Corunha. © 2021 by Isabel Rei Samartim Capa do Pleito Ozores-Baradat. Arquivo do Reino da Galiza. Corunha. © 2021 by Isabel Rei Samartim
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Entrada a segunda década do século XXI podemos afirmar sem medo que o processo da Independência dos Estados Unidos da América, que acabou com a Declaração de 1776, provocou um autêntico terramoto na política das antigas monarquias europeias. A réplica de Bonaparte, desde 1789, redefiniu o mapa político da Europa e condicionou todo o acontecido durante o século XIX, especialmente a criação dos novos Estados-Nação. As guerras napoleónicas sentiram-se com especial intensidade na Península Ibérica, onde nenhum governo ficou isento da sua influência. As tropas francesas que entraram por Portugal em 1807, passaram logo em 1808 à Galiza e depois se estenderam ao resto da península. O rei Bourbon Fernando VII foi deposto e durante quase seis anos reinou José I Bonaparte, entre 1808 e 1813. As monarquias de toda a Europa foram caindo uma atrás doutra, obrigadas a abandonar o poder, o que originou uma mudança de elites que não foi pacífica, como testemunha a vida do guitarrista e compositor Fernando Sors (Barcelona, 1778 – Paris, 1832).

Além das napoleónicas, outras guerras tiveram lugar por toda a Europa durante essa primeira metade do século XIX. No seu processo particular, a intelectualidade alemã ideou um conceito para definir o cansaço da burguesia que, depois de batalhar, regressava às casas com vontade de descansar, recuperar-se e viver tranquilamente sem preocupações. Nesse período, as famílias burguesas desenvolveram as artes num modo que inicialmente foi chamado de Biedermeier. Com efeito, Gottlieb Biedermeier, ou Biedermaier, era o nome duma personagem de ficção que se tinha feito famosa na revista Fliegende Elssner (Folhas Volantes). O seu apelido passou a denominar o estilo artístico burguês na Alemanha e na Áustria, compreendido entre os anos de 1815 e 1848 (Yates, 2001).

O período Biedermeier na Galiza

Foi curioso entender o paralelismo biedermeier que na Galiza encarna a figura valleinclaniana do Senhor de Montenegro. O protagonista de Romance de Lobos é um fidalgo que se rege pelas antigas normas da nobreza galega, que vai batalhar, regressa e vê a sua vida negada pela modernidade. Os filhos que saqueiam a fazenda da mãe falecida, a morte que o esquiva até ser assassinado por um dos filhos, são imagens metafóricas dum futuro que devora o passado com inesperada avidez. No lusco-fusco dum tempo, do antigo tempo da fidalguia galega, o facto de abandonar as terras, a família, a fazenda é abandonar o poder, é perder a legitimidade histórica. No caso da Galiza, o nosso período Biedermeier, ou montenegrino, seria o decorrido entre o final da Guerra do Francês (1814) e o levantamento de Solis (1846), em que aconteceram várias guerras carlistas, a sucessão da monarquia e as revoltas populares contra o novo Estado desde a sua primeira Constituição em 1812.

Pleito por uma guitarra

Primeira página do Pleito Ozores-Baradat. Arquivo do Reino da Galiza. Corunha. © 2021 by Isabel Rei Samartim.Primeira página do Pleito Ozores-Baradat. Arquivo do Reino da Galiza. Corunha. © 2021 by Isabel Rei Samartim.

Como exemplo de fidalguia galega a enfrentar os seus privilégios com os do novo funcionariado, e em relação à guitarra na Galiza, está o pleito por uma guitarra da Condessa de Oleiros, Manuela Ozores, residente em Santiago de Compostela, contra o médico catalão, militar e funcionário, Cristóbal Baradat. O documento conserva-se no Arquivo do Reino de Galiza, catalogado em Real Audiência, cota: 11166/39. Ao sofrer uma doença grave, o cunhado da Condessa de Oleiros, Rafael das Seixas, contratou os serviços do médico Baradat sem dinheiro para lhe retribuir. Desse modo, a retribuição que arranjou o Seixas foi a de emprestar (sic) ao médico a guitarra que ele tocava, mas que era propriedade da Condessa. Segundo descreve o pleito, esta era uma guitarra de estimação (alfaia), construída em Cádis, que tinha custado três onças de ouro e estava protegida por um estojo forrado. Como o médico não queria devolver o instrumento, pois não aceitava o dinheiro que a Condessa lhe oferecia, uma vez morto o cunhado, Manuela Ozores decidiu fazer o possível por retornar a alfaia perdida. Porém, o perito encarregado de determinar o preço da guitarra deu-lhe um valor muito por baixo do custo real. O resultado final é uma incógnita, pois entre os vinte e nove fólios do pleito não vemos resolução alguma, mais que a de adiar Baradat a entrega do instrumento, escusando-se por o ter dado em prenda à filha.

Para a história da guitarra este pleito indica não poucas cousas, todas interessantes e importantes. Por ele sabemos que entre os anos de 1813 e 1817 havia em Compostela uma guitarra de alta construção, feita por algum dos vários violeiros que havia na época em Cádis, entre os que estavam José Benedid (1760-1836), Josef Guerra (1770-?), Juan Pagés (1741-1821) e outros membros da família Pagés (Romanillos e Harris, 2002). Que a guitarra tinha sido adquirida por uma família galega da nobreza e que era usada, no mínimo, pela Condessa Manuela Ozores e o próprio Rafael das Seixas. E que o médico Baradat estava muito interessado no instrumento, até ao ponto de o dar em prenda à filha, facto que não teria sentido salvo pelo interesse dela em aprender a tocar. Revelam-se aqui, no mínimo, quatro guitarristas amadoras e amadores ativos, ou principiantes, em Compostela, no início do século, pois resulta difícil crer que na família da Condessa, alguma das filhas não tivesse também a mesma inclinação pela música e pela guitarra.

Quanto à história geral da Galiza, este documento contém indícios para saber que o cunhado da Condessa de Oleiros era Rafael das Seixas e Ribadeneira, da Casa de Báscuas (Arçua), que era regedor em Compostela em 1794, Reitor do Seminário em 1809 que, segundo se indica, morreu em 1811. Também é manifesta a inexistência de juiz em Compostela nas datas do pleito, pois todos os autos são dirigidos ao Alcalde (Presidente da Câmara Municipal) palavra que, curiosamente, no árabe originário significa “o Juiz”. 

Entre as testemunhas que a Condessa dispõe para a sua defesa acham-se Vicente Feijó Montenegro, mestre das filhas da Condessa, homónimo do escritor recolhido por Carvalho (1962) um século mais tarde, um Zisneros, da poderosa Casa de Gimonde, amigo da família e também dos Valladares, e o organeiro Joseph Benito Gonzales das Seixas, possível familiar de Rafael das Seixas, autor do órgão das Dominicas de Belvis entre 1791 e 1793 (López, 2002) e do de Santiago da Corunha em 1795 (Couselo, 2005).


Bibliografia
Carvalho Calero, R. (1962). Historia da literatura galega contemporanea. Vigo: Galaxia.
Couselo Bouzas, J. (2005). Galicia artística en el siglo XVIII y primer tercio del XIX. Santiago de Compostela: Instituto Teológico Compostelano.
López Rivera, J. J. (2002). El Modo, la categoría gramatical y la cuestión modal. Santiago de Compostela: Universidade de Santiago de Compostela.
Rei-Samartim, I. (2020). A guitarra na Galiza. Tese de doutoramento. Universidade de Santiago de Compostela.
Romanillos Vega, J. L. e Harris Winspear, M. (2002). The vihuela de mano and the spanish guitar. A dictionary of the makers of plucked and bowed musical instruments of Spain (1200-2002). Guadalajara: Sanguino.
Yates, W. E. (2001). Biedermeier. Em Sadie, S. (Ed.). The New Grove Dictionary of Music and Musicians, 3, (2ª ed., 557-559). Nova Iorque: Oxford University Press.
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