Vox nostra resonat

A guitarra na Galiza

A guitarra Voiriot e o respeito à Natureza

Isabel Rei Samartim
jueves, 13 de mayo de 2021
Roseta da guitarra Voiriot © 2021 by Isabel Rei Samartim Roseta da guitarra Voiriot © 2021 by Isabel Rei Samartim
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Na Galiza conservam-se várias guitarras originais da primeira e da segunda metade do século XIX. Em artigo anterior apresentei a guitarra da família Salaverri, feita pelos violeiros franceses que assinavam como Viúva de Parizot e Lauriol. 

O presente artigo ocupa-se da guitarra Voiriot, construída possivelmente na década de 1840-50, em Troyes (Champanhe, França), que continua hoje em ativo na cidade de Compostela. 

Pieza enlazada

Esta guitarra, ou viola francesa, deveu ter um percurso vital odisseico, com diversos capítulos, por vezes traumáticos, que lhe deixaram marcas da sua vida anterior, antes da peregrinação a terras galegas. 

Este instrumento também oferece motivos para a reflexão sobre as práticas construtivas atuais.

O cigano Joseph Ziegler

O percurso da guitarra Voiriot na Galiza começa com o violagambista, luthier e investigador galego, Francisco Luengo, e o seu contato com Joseph Ziegler, um cigano da Mitteleuropa que vendia instrumentos de arco e costumava peregrinar a Compostela acompanhado de toda a família. Normalmente, Luengo achava no armazém ambulante de Ziegler instrumentos antigos, a bom preço, para uso de estudantes, intérpretes e violeiros. 

Valentín Novio no seu estúdio a tocar a guitarra Voiriot. © 2021 by Isabel Rei Samartim.Valentín Novio no seu estúdio a tocar a guitarra Voiriot. © 2021 by Isabel Rei Samartim.

Um bom dia apareceu entre as violas de arco, uma viola de mão ou guitarra romântica. O instrumento, que se achava em mau estado, precisou de diversas reparações na oficina de Luengo, onde se realizaram diversos restauros. Depois, a recuperação do instrumento para a vida musical ativa precisou ainda de mais intervenções, realizadas na oficina do luthier César Arias. Desse modo a guitarra voltou a soar nas mãos do seu dono atual, Valentín Novio López, guitarrista, professor e colega da autora deste artigo.

A família de violeiros Voiriot

Quando Tín levou a guitarra ao conservatório, para a usar como instrumento de docência, indicou-me que o nome do construtor era Voiriot. Imediatamente fui consultar o Dictionnaire Universel des Luthiers de René Vannes (1888-1956), que fora músico e arquivista no Conservatório de Bruxelas. Vannes documenta dous violeiros Voiriot. 

Cabeça e cravelhame da guitarra Voiriot. © 2021 by Isabel Rei Samartim.Cabeça e cravelhame da guitarra Voiriot. © 2021 by Isabel Rei Samartim.

O primeiro, Dominique Voiriot, nasce em 1799 na cidade de Mirecourt, que é um dos grandes centros de construção na França, e estabelece-se em Troyes, localidade entre Mirecourt e Paris. Este poderia ser familiar do segundo Voiriot documentado por Vannes, Charles Aimé, também estabelecido em Troyes. O pesquisador francês René Pierre oferece no seu blog informação sobre os violeiros e músicos Gaulard e Voiriot. Por ele sabemos que Charles Aimé Voiriot (n. 1843) era filho de Jean Joseph Voiriot (1803-1854), organeiro em Mirecourt. 

Charles Aimé casou com Augustine Angèle Gaulard (n. 1847), membro da família dos violeiros Gaulard, em 15 de setembro de 1868, e tiveram quatro filhos, um deles, Marcel, também violeiro a trabalhar com o pai. Ainda no século XX documenta-se um outro Voiriot em Troyes, construtor de pianos (The World of the Pianoforte). Voiriot era, portanto, uma longa família de músicos e construtores de instrumentos, originária da cidade de Mirecourt e estabelecidos em Troyes.

Mesmo que as últimas pesquisas iluminam mais um pouco este assunto, com os dados disponíveis ainda não é possível saber qual dos Voiriot foi o construtor da guitarra conservada na Galiza. O artesão documentado que mais se aproxima é o Dominique Voiriot que recolhe Vannes. Pela data de nascença, 1799, ele poderia ter feito esta guitarra durante a primeira metade do século XIX. Já o Charles Aimé, nascido em 1843, parece um autor mais improvável. Por último, falta informação sobre o pai de Charles Aimé, o organeiro Jean Joseph, para estimar se poderia ter trabalhado como violeiro e sobre outros, possíveis, familiares violeiros.

Descrição da guitarra Voiriot

Frente da guitarra Voiriot. © 2021 by Isabel Rei Samartim.Frente da guitarra Voiriot. © 2021 by Isabel Rei Samartim.

O luthier César Arias descobriu o nome de Voiriot pirogravado por dentro da caixa, na madeira do fundo. Visto que não havia etiqueta, essa foi a única maneira de conhecer a autoria. Um dos elementos que apoiam que a guitarra foi construída na primeira metade do século XIX é a sua semelhança com outra Voiriot, feita em 1845, que se vendeu na loja de instrumentos musicais Orphée, de Paris. 

Na página web deste estabelecimento ainda se podem ver as fotos das guitarras vendidas e, com as fotos deste artigo, comprovar as semelhanças e diferenças entre as duas guitarras Voiriot, talvez construídas por membros diferentes da mesma família.

Na Voiriot conservada na Galiza, a longitude da escala é de 627 mm. O instrumento passou por um forte restauro perto do ano 2000 quando, depois de serem reparados os filetes, foi acrescentada uma escala um pouco mais alta para poder encordoar a guitarra. A madeira do tampo é de abeto, a escala e o cavalete são de ébano, os aros de bordo (Acer saccharum), o fundo tem abeto por dentro e bordo por fora. O braço está feito de três peças: cabeça, braço e pé do braço, tudo forrado de ébano. A decoração de flores, a medir uns 2 cm. é de nácar e pasta de ébano.

Cavalete da guitarra Voiriot. © 2021 by Isabel Rei Samartim.Cavalete da guitarra Voiriot. © 2021 by Isabel Rei Samartim.

Quanto ao cavalete, a que está atualmente na guitarra não parece a original de Voiriot, mas uma outra realizada em estilo da época, conservando as duas setas ornamentais, que sim parecem originais de Voiriot. No tampo observam-se vestígios duma reparação por baixo do cavalete. Talvez um acidente acontecido nos primeiros anos de vida do instrumento provocou o que hoje parece um restauro prematuro. Finalmente, também foi preciso reparar uma fenda na parte de trás, por isso o verniz original foi retirado e daí a situação atual.

Nitrato de celulose

Quanto ao material dos filetes de cor clara que rodeiam o tampo, combinados com o ébano, existe a hipótese de o material não ser marfim, mas um substituto plástico que se começava a sintetizar na época. Esta hipótese ainda precisa de confirmação, e há opiniões diversas sobre o caso, mas a sua formulação levou-me a reflexões que acho de interesse para a construção atual.

Parte de trás da guitarra Voiriot. © 2021 by Isabel Rei Samartim.Parte de trás da guitarra Voiriot. © 2021 by Isabel Rei Samartim.

O nitrato de celulose, trinitrocelulose, ou algodão-pólvora, foi um dos primeiros plásticos a serem sintetizados. Isto aconteceu pela primeira vez em 1846, no laboratório do químico alemão C. F. Schönbein (Prebedón, 2005). O nitrato de celulose está formado por algodão, ácido nítrico e ácido sulfúrico, matérias primas semelhantes às utilizadas para a nitroglicerina. Este material tem, portanto, propriedades explosivas, mas também oferece outros usos mais artísticos, por exemplo, como celuloide para filmes, para fabricar bolas de bilhar, teclas de pianos ou ornamentação de guitarras.

Sem ser perfeita, esta foi uma das soluções científicas aparecidas no século XIX para diminuir o massacre de elefantes na África, principal origem do marfim. A caça de elefantes foi um negócio atlântico, estabelecido pelo domínio ocidental no continente africano desde o século XV, juntamente com o tráfico de escravos (Santos, Paiva e Gomes, 2018), que ainda hoje não está abolido na maior parte de países do mundo, o qual permite a caça legal, e furtiva, com a posterior venda e comercialização do marfim roubado aos animais.

Se o nitrato de celulose fosse o material dos filetes da guitarra Voiriot, a data da sua sintetização, 1846, situaria a construção do instrumento depois esse ano e não antes, sendo a guitarra Voiriot um exemplo de evolução da luteria europeia. 

Mas, além do material real dos filetes da guitarra, esta hipótese favorece a ocasião de debater sobre a construção de instrumentos. A sintetização de materiais substitutos, que hoje está muito mais avançada, ajuda a combater os negócios abusivos e depredadores. A ciência tem a oportunidade de oferecer soluções boas para uma arte em harmonia com a Natureza, que nos encaminhem aos novos valores que presidirão as práticas musicais no futuro.

 

Bibliografia

Orphée. Paris.

Pierre, R. (2020). François Jude Gaulard (1787-1852) archetier à Mirecourt. Blog: Archives musique, facteurs, marchands, luthiers. (17/04/2021).

Predebón, L. I. (2005). Posibilidades plásticas del polímero acrílico Paraloid B-72 utilizado como aglutinante pictórico. Tese de doutoramento. Madrid: Universidad Complutense.

Rei-Samartim, I. (2020). A guitarra na Galiza. Compostela: USC. Tese de doutoramento.

Santos, V. S., Paiva, E. F. e Gomes, R. L. (2018). O comércio de marfim no mundo atlântico. Circulação e produção (séculos XV a XIX). Belo Horizonte: Clio Gestão Cultural e Editora.

The World of the Pianoforte. Página web dedicada ao estudo dos construtores e vendedores de pianos e outros instrumentos musicais. (Consultada em 16/04/2021).

Vannes, R. (2003). Dictionnaire Universel des Luthiers, (3ª ed.). Bélgica: Les Amis de la Musique. Primeira edição: Vannes, R. (1951-1959). Dictionnaire universel des luthiers, 2 v. Bruxelas.

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