Vox nostra resonat

A guitarra na Galiza

A guitarra galega contada aos galegos e às galegas

Isabel Rei Samartim
jueves, 20 de mayo de 2021
Guitarra Galega © 2021 by Através Editora Guitarra Galega © 2021 by Através Editora
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O título deste artigo pode ser redundante, como é redundante também o título do livro que amanhã, dia 21 de maio de 2021, se apresenta sob a chancela da Através Editora, editorial reintegracionista galega. Intitulado Guitarra galega. Breve história da viola (violão) na Galiza, este livro de bolso, publicado na coleção Alicerces, ousa colocar numa mesma mensagem os três nomes por que é conhecido este cordofone dedilhado na língua portuguesa.

O bom, se é breve, é duas vezes bom

O texto, salpicado de ilustrações orientadoras, debruça-se na história da guitarra, viola ou violão, desde o século XII até ao XIX com um adianto do século XX, está redigido em linguagem singela, descritiva e aberta ao leitor não músico, tocando de modo sucinto os aspetos mais importantes da milenar história do instrumento por terras galegas. O que é a guitarra galega, segundo a autora; os três nomes e uma descrição elementar do instrumento; os antecedentes desde a Idade Média, passando por cada século entre o XV e o XVIII; a transformação do século XIX; a guitarra popular; o Biedermeier já conhecido das leitoras de Mundoclasico.com; as guitarras originais, algumas delas também tratadas aqui; os fundos galegos também resumidos nos primeiros artigos desta serie; os solistas e recitais; as escolas de música e as orquestras de guitarras; a violaria galega e os armazéns de música onde se vendiam guitarras e outros cordofones; as intérpretes dentro e fora da Galiza e o adianto de informações do século XX são os temas tratados na publicação.

Guitarra galega versus guitarra espanhola

Um outro tema com capítulo próprio resume as conclusões da tese de doutoramento A guitarra na Galiza (2020) a respeito da construção política da guitarra dita “espanhola” e o seu efeito destrutor da memória da guitarra como instrumento galego:

A identificação do instrumento como espanhol querendo significar “nacional do novo Reino da Espanha” realiza-se nas últimas décadas do século XIX, durante a etapa canovista de restauração monárquica, quando se inicia a construção da nação única para o novo Estado. É nesse momento que se estabelecem os elementos simbólicos identitários como a moeda, a bandeira, o hino, a literatura, com a denominada Geração do 98 e, no âmbito da música, os estilos castelhano-andaluzes tocados na guitarra, com alguns traços permitidos da música cigana da Andaluzia. Desse modo, as músicas do resto de nações peninsulares ver-se-ão ignoradas pela simbologia escolhida para representar a nação espanhola. A música castelhano-andaluza para guitarra será promovida como símbolo musical dentro e fora das fronteiras do novo Estado e isso provocará na Galiza um prejuízo grande para @s guitarristas galeg@s, pois como consequência dessa promoção, e sobretudo pela exclusão da música galega, o instrumento começará a ver-se como não galego.

Essa negação da guitarra como instrumento galego é a causa da sua ausência nos livros sobre música tradicional e trouxe como consequência o vazio atual formado em torno do instrumento que, precisamente, este livro quer compensar. A história compensatória formulada pela musicóloga feminista Marcia Citron tem aqui um papel fulcral e, na verdade, esse é o miolo do assunto, pois a autora necessita responder perguntas muito antigas e profundas que marcam a sua vida como guitarrista desde criança, perguntas para as que não tinha resposta. 

Uma história familiar cheia de música e guitarra galega, os estudos oficiais no conservatório sem guitarra galega, a historiografia confusa da Spanish guitar entre o dream anglófono e a ensoñación espanhola, a certeza de que a história própria estava esquecida e o relato por construir, foram os ingredientes principais da grande pergunta que a autora procurou responder: Porquê não sabemos nada da guitarra e d@s guitarristas galeg@s?

Reintegracionismo e música

Isabel Rei Samartim. © 2020 by Isabel Rei Samartim.Isabel Rei Samartim. © 2020 by Isabel Rei Samartim.

A autora, guitarrista desde criança, tem também uma veia literária que a levou desde muito cedo a abraçar o Reintegracionismo, movimento cultural e linguístico que aposta pela aprendizagem do Galego internacional, mais conhecido por língua portuguesa, para a alfabetização na língua própria de miúdos e de adultos, para uso das instituições galegas e dos estabelecimentos de ensino básico, secundário e superior, em definitivo, para o desenvolvimento digno do povo galego na nossa língua extensa e útil, à par do castelhano e do inglês, oficial em sete países e de uso em organismos europeus e internacionais, como a ONU e o Parlamento Europeu. Uma língua de cultura com história própria, com variantes próprias e todo um sistema civilizacional a contribuir para a cultura europeia e universal.

As outras autoras da história

O prólogo da Guitarra galega. Breve história da viola (violão) na Galiza foi realizado pela professora portuguesa Helena Marinho, especialista em música do século XX para piano e coordenadora dum dos projetos de recuperação das mulheres músicas mais importantes em Portugal, o realizado na Universidade de Aveiro e intitulado Euterpe revelada. Mulheres na composição e interpretação musical em Portugal nos séculos XX e XXI. Colaboradora noutros projetos de recuperação da música popular realizada por mulheres, Helena Marinho é  é uma excelente pianista, membro da candidatura recentemente ganhadora ao relevo nos órgãos sociais da Sociedade Portuguesa de Investigação em Música.

A diretora da Coleção Alicerces da Através Editora é a bem conhecida escritora e professora de Linguística Geral na Universidade de Santiago de Compostela. Teresa Moure Pereiro, que não para de escrever e publicar, quer no âmbito do feminismo, quer no da linguística, romance, filosofia e mais, teve a feliz ideia de convidar a autora deste artigo para integrar a sua coleção dedicada a ampliar as leituras das gentes galegas: o feminismo, a eutanásia, os crimes de ódio, os videojogos, a arte, a dramaturgia, o conto oral e a música são os temas tratados nos volumes publicados até ao momento na Alicerces, sempre na versão internacional da nossa língua. Agora, também a guitarra tem aí o seu espaço. Livros para levar no bolso ao lado da carteira e o bilhete de identidade, livros curiosos a abrirem novas perspetivas, livros livres com vontades de contribuir ao desenvolvimento do pensamento popular galego.

Amanhã, a apresentação telemática terá lugar às 21h na Galiza e 20h em Portugal, nas redes sociais YouTube e Facebook coordenadas pelo representante da editora Tiago Alves, e contará com a presença da diretora da coleção, Teresa Moure, da autora do prólogo, Helena Marinho e desta vossa servidora, autora da Guitarra galega. Breve história da viola (violão) na Galiza.

 

Bibliografia
Através Editora. Coleção Alicerces.
Blog Euterpe. Mulheres na composição e interpretação musical em Portugal nos séculos XX e XXI
Marcia Citron (1993). Gender and the Musical Canon. Cambridge: Cambridge University Press.
Isabel Rei-Samartim (2020). A guitarra na Galiza. Compostela: USC. Tese de doutoramento.

 

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