Vox nostra resonat

A guitarra na Galiza

As guitarras de Cee. Francisco e Concepción González

Isabel Rei Samartim
jueves, 3 de junio de 2021
Etiqueta da guitarra de F. González de 1876 © by Guitar Salon International Etiqueta da guitarra de F. González de 1876 © by Guitar Salon International
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A história conhecida de Francisco González Estévez (Córgomo, 1820 – Madrid, 1879) é a dum genial violeiro de quem tradicionalmente não se destaca a sua origem galega. O silenciamento da sua origem causou a ausência de conhecimento atual na Galiza. Mas, se a ignorância espalhada sobre o ourensano tem sido eminente, o véu tupido arrojado sobre a filha violeira, Concepción González, é espetacular.

Francisco González, guitarra de 1876. © by Guitar Salon International.Francisco González, guitarra de 1876. © by Guitar Salon International.

No Vale de Eorras, ou Valdeorras, nasce em 1820 um inventor de engenhos mecânicos e artesão da madeira, um espírito aventureiro, segundo Prat um visionário que, metido à construção de instrumentos, conseguiu o prémio internacional mais importante da época para a guitarra: O concedido pela Segunda Exposição Universal, realizada no Campo de Marte, em Paris, em 1867. A primeira Expo da História tinha tido lugar em Londres, cinco anos atrás, em 1862.

Quem primeiro recolhe em livro esta notícia é o compositor, pianista, pesquisador e intelectual galego José Maria Varela Silvari (Corunha, 1848 – Madrid, 1926) que incluía Francisco González na sua Galería biográfica de músicos gallegos (1874). Esta publicação é um exemplo de reivindicação musical galega no momento em que começa a construir-se a ilusão da nação única, representada musicalmente na guitarra española. Talvez por isso a Galeria de Silvari foi enterrada, e com ela todos os dados que fornecia sobre a música galega. De Francisco González dizia Silvari:

De todas partes se dirigen á su establecimiento de construcción con ánimo de conocer sus magníficas guitarras, admiradas ya en todo el mundo filarmónico. Suponemos que nadie se admirará de esta noticia al saber que su obrador, establecido en Madrid, lleva el pomposo título de Guitarreria Universal; y con mayor razón, si consideramos que sus guitarras se venden desde el reducido precio de 40 reales hasta el de 12.000, que es bastante considerable.

O nome da oficina de trabalho de González parece pensado em lembrança do grande prémio ganhado na Expo Universal de Paris. Do parágrafo de Silvari deduz-se que González era bem conhecido e a fama das suas guitarras, alongada. Algumas fontes indicam que González teria chegado a Madrid com 16 anos, entre 1835 e 1836, sugerindo que ainda desconhecia o ofício de violeiro. Contudo, as informações que temos sobre o uso da guitarra na Galiza, e concretamente em Ourense, avalizam que o interesse por este instrumento podia vir-lhe a González da sua cultura galega. Além disso, com 16 anos os moços da época já tinham aprendido os rudimentos dum ofício. Tendo isto em conta, a viagem a Madrid teria outro significado, mais próximo da procura de sucesso numa metrópole, para desenvolver os talentos diversos que desde a juventude devia demonstrar Francisco González, como é habitual na história galega.

Roseta duma das guitarras de oito cordas. Liceu Fernando Blanco, Cee. © 2021 by Isabel Rei Samartim.Roseta duma das guitarras de oito cordas. Liceu Fernando Blanco, Cee. © 2021 by Isabel Rei Samartim.

Os documentos de Romanillos e Harris (2002, p. 156) situam Francisco González por primeira vez em Madrid em 1849-50, numa vivenda alugada na Calle de los Estudios, 8, S. Isidro, empadroado como marceneiro (cabinet making) e violeiro (guitar maker). Em 1851, Francisco casa com María Cruz Carretero (n. 1829). Em 1855 nasce Bárbara María Concepción González Carretero. Em 1858, nasce Josefa Matilde, e em 1860, María del Rosario Augusta Catalina. Das três filhas, apenas Concepción parece ter chegado à idade adulta. Romanillos e Harris documentam em pormenor os diversos lugares onde morou a família González-Carretero ao longo da sua vida em Madrid, até ao internamento de Francisco González por pneumonia no Hospital Geral. 

Destas informações deduz-se que o ourensano ensinou o ofício da violaria à filha Concepción, pois ela aparece registada como guitarrera em 1882 na Calle Cádiz, 14-16, junto do seu esposo Enrique Románs Papell, tocaor de flamenco e violeiro, e a mãe de Concepción, María Cruz Carretero. Nesse mesmo endereço teria estado antes a oficina do violeiro Benito Campo e o filho José M. Campo Castro, editor da Moinheira para guitarra conservada na coleção de música do guitarrista pontevedrês Javier Pintos Fonseca.

Roseta duma das guitarras de seis cordas. Liceu Fernando Blanco, Cee. © 2021 by Isabel Rei Samartim.Roseta duma das guitarras de seis cordas. Liceu Fernando Blanco, Cee. © 2021 by Isabel Rei Samartim.

Um outro interessante pormenor é o amplo leque de guitarras construídas na oficina de Francisco González, desde guitarras de todos os preços até cordofones dedilhados de todas as formas e tamanhos. Costume também observado na família Campo, autores de vários tratados sobre diversos instrumentos da família das guitarras ou violas, como o Breve método para tocar por música bandurria, laúd, octavilla, guitarra de doce cuerdas y cítara de seis órdenes. Naturalmente, isto fazia parte da prática comum da violaria peninsular durante todo o século XIX, e passou à filha de González, segundo pode apreciar-se nas guitarras Hijos de González, etiqueta onde o masculino genérico oculta o peso de Concepción na construção dos instrumentos.

Armário de Felipe Vaamonde em 1909. Liceu Fernando Blanco, Cee. © 2021 by Isabel Rei Samartim.Armário de Felipe Vaamonde em 1909. Liceu Fernando Blanco, Cee. © 2021 by Isabel Rei Samartim.

Uma boa coleção de guitarras Hijos de González pode visitar-se no Liceu Fernando Blanco de Lema, em Cee. Este instituto de ensino secundário, que conta também com uma Fundação e um Museu, foi inaugurado entre 1886 e 1887 para a educação da juventude ceense com a fortuna ganhada na Havana e doada à vila pelo também ceense Fernando Blanco de Lema. A iniciativa de Blanco de Lema pode tomar-se como uma das primeiras escolas galegas abertas com fundos vindos da emigração, prática que teria continuidade ao longo do século XX até 1936. Num período de 32 anos estima-se que foram fundadas de modo particular, e com financiamento das Sociedades Galegas na emigração, umas 225 escolas por toda a Galiza (Areas, 2010, pp. 136-137).

No Liceu Fernando Blanco de Cee conserva-se uma boa coleção de instrumentos musicais, entre os que se acham três guitarras de seis cordas e duas de oito cordas, estas referidas como guitarrões, compradas para o ano letivo de 1907-1908, da autoria de Hijos de González

Mais instrumentos no Museu da Fundação Fernando Blanco de Lema, Cee. © 2021 by Isabel Rei Samartim.Mais instrumentos no Museu da Fundação Fernando Blanco de Lema, Cee. © 2021 by Isabel Rei Samartim.

Na coleção há mais três cordofones dedilhados cuja etiqueta não pude ver, e são o denominado ‘alaúde’, que é um cistre ou cítara com caixa em forma de lágrima ou pera, mais uma bandurra e um bandolim. Além destes oito cordofones dedilhados observamos também seis violinos e um contrabaixo, doze arcos (dous de contrabaixo), seis ocarinas de diferentes tamanhos, sete pandeiretas, dous clarinetes (um deles incompleto), seis flautas (uma de metal e cinco de madeira, de diferentes tamanhos), onze castanholas, um piano Pleyel Wolff e C.ª, duas estantes de madeira (uma de mesa e uma de pé) e partituras. Noutras escolas conservam-se mais instrumentos da Fundação e Museu Fernando Blanco.

Com certeza, não é casual que na galega vila de Cee quiseram nutrir a sua Aula de Música com guitarras construídas pela filha do galego González. Na herança que o pai deixou à filha, publicada por Romanillos e Harris (2002, p. 522), figuram uma harpa, trinta guitarras de diferentes preços e construções, onze bandurras também de diferentes preços, quatro violinos, dous bancos de trabalho, ferramentas, vários tipos de madeiras e uma guitarra com fundo de tartaruga a custar 700 pesetas da época. No total, estes objetos somavam umas 1.750 pesetas, o que era suficiente para a filha continuar o trabalho de construção de guitarras. Pelo número delas conservadas em Cee entendemos que a sua ligação com a Galiza continuava firme, o que permite considerar Concepción González Carretero (Madrid, 1855-1927) como uma das primeiras violeiras galegas.

Serie A Guitarra en Galiza

Bibliografia
Areas Domínguez, D. (2010). “A Fundación Fernando Blanco de Lema de Cee e o seu Museo-Colección”. Adra (5), 135-144.
Bordas, C. (1993). La Guitarra Española. The Spanish Guitar. Madrid: Ópera Tres.
Campo Castro, J. T. (1894?). Breve método para tocar por música bandurria, laúd, octavilla, guitarra de doce cuerdas y cítara de seis órdenes. Madrid: Campo Castro. Disponível em: BNE, cota: MP/1782/12.
Prat, D. (1934). Diccionario biográfico, bibliográfico, histórico, crítico de guitarras, guitarristas, guitarreros... Buenos Aires: Romero y Fernández. Reedição: Prat, D. (1986). A biographical, bibliographical, historical, critical Dictionary of guitars, guitarists, guitar-makers... With an introduction by Matanya Ophee. Columbus: Editions Orphée.
Romanillos Vega, J. L. e Harris Winspear, M. (2002). The vihuela de mano and the spanish guitar. A dictionary of the makers of plucked and bowed musical instruments of Spain (1200-2002). Guadalajara: Sanguino.
Varela Silvari, J. M. (1874). Galería biográfica de músicos gallegos. Corunha: Vicente Abad.

 

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