Vox nostra resonat

A guitarra na Galiza

Francisco Núñez Rodríguez e o sonho americano

Isabel Rei Samartim
jueves, 10 de junio de 2021
Francisco Núñez, editor. Assinatura e logótipo © 2021 by Isabel Rei Samantim Francisco Núñez, editor. Assinatura e logótipo © 2021 by Isabel Rei Samantim
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É graças ao guitarrista e pesquisador catalão Domingo Prat (Barcelona, 1886 – Buenos Aires, 1944) que sabemos do violeiro galego Francisco Núñez Rodríguez. É importante observar que Prat relata a vida de alguém que conheceu e tratou de modo quotidiano, quer dizer, o autor transforma em História o relato vital dum amigo, contrastado pelas experiências do próprio Prat e as informações doutros contemporâneos. 

Necessitamos ter em conta isto porque a relativa proximidade do historiador com o historiado oferece elementos de estudo e focagens diversas de quando se narra, por exemplo, a história medieval. Assim, o verbete que Prat dedica ao violeiro galego no seu dicionário está cheio de detalhes preciosos, anedotas peculiares e aquelas informações que o autor considera relevantes no seu momento e na sua vida.

Francisco Núñez em Buenos Aires

Logótipo da Antigua Casa Núñez, após Diego Gracia, em Sarmiento 1573, que é ainda o endereço atual. © 2021 by Isabel Rei Samartim.Logótipo da Antigua Casa Núñez, após Diego Gracia, em Sarmiento 1573, que é ainda o endereço atual. © 2021 by Isabel Rei Samartim.

Nascido em Tebra, Baixo Minho, em 9 de abril de 1841, Francisco Núñez Rodríguez emigra à idade de 17 anos com o seu pai e mãe para a Argentina. O matrimónio formado por Dionísio Núñez e Maria Rosa Rodríguez chegou a um Buenos Aires que já estava cheio de guitarra. Porém, também interessa determinar quanta guitarra havia no Baixo Minho, e por toda a zona de Vigo, durante a primeira metade do século XIX. 

Na segunda metade, o boom das orquestras de plectro e guitarras, o surgimento de valiosos músicos galegos formados nestas orquestras como Reveriano Soutullo ou Germán Lago, as notícias sobre os concertos, as giras de guitarristas, os locais e as lojas indicam que o ambiente de guitarra no Baixo Minho não podia ser inexistente. E como estas cousas não mudam radicalmente duma metade de século para a outra, é lógico supor que o fervilhar guitarrístico no Sul da Galiza tenha a sua origem na atividade das décadas anteriores.

Logótipo da editora dos Sucesores de Núñez, já na rua Sarmiento 1566. © 2021 by Isabel Rei Samartim.Logótipo da editora dos Sucesores de Núñez, já na rua Sarmiento 1566. © 2021 by Isabel Rei Samartim.

É relevante isto, porque não é fácil crer que o jovem Francisco Núñez experimentasse um repentino interesse pela arte da construção de guitarras somente por morar em Buenos Aires. Parece-nos mais lógico que o cerne desse interesse tivesse surgido na sua terra natal, onde poderia ter acontecido o seu primeiro contato com o instrumento. 

Só assim visionamos a possibilidade de, em Buenos Aires, Francisco Núñez entrar em contato com o violeiro Ramírez, o seu mestre de construção. Sobre este Ramírez, Romanillos e Harris (2002, pp. 269 e 323) afirmam ser Salvador Ramírez González, nascido em 1838. Porém, Prat deixa dito que o Ramírez que foi mestre de Francisco Núñez era sogro do guitarrista malhorquino Gaspar Sagreras (1838-1901). Parece difícil que Salvador Ramírez e Gaspar Sagreras, que nasceram no mesmo ano, tivessem uma relação familiar de sogro e genro. Mais bem, se os dados anteriores são corretos, seria algum Ramírez anterior a Salvador o mestre de Francisco Núñez.

Etiqueta de Daniel Lago Núñez, 1954, guitarra número 480. © 2021 by Isabel Rei Samartim.Etiqueta de Daniel Lago Núñez, 1954, guitarra número 480. © 2021 by Isabel Rei Samartim.

Estes dados oferecem pistas e informações sobre a construção de guitarras em Buenos Aires desde as primeiras décadas do século XIX. Era necessária esta ligação pois avaliza o ambiente guitarrístico que fornecem os estudos de García Morillo (1984), García Acevedo (1961) e Muñoz (1930). A guitarra, ou viola, foi um meio de evolução da cultura musical argentina abordado por Melanie Plesh (1996) e, duma perspectiva muito interessante por Guillermina Guillamón (2012), que cita, entre outros instrumentos, a guitarra como um meio de estudo das práticas sociais, e da construção de cultura e identidade nacional da Argentina.

Casa Núñez

Guitarra de Daniel Lago Núñez, 1954, na loja Guitarrería de Buenos Aires. © 2021 by Isabel Rei Samartim.Guitarra de Daniel Lago Núñez, 1954, na loja Guitarrería de Buenos Aires. © 2021 by Isabel Rei Samartim.

Diz Prat que em 1870 Francisco Núñez concibe a ideia de fundar a depois afamada Casa Núñez, lugar de construção, edição de partituras, venda de instrumentos, tertúlias e recitais de guitarra, centro guitarrístico em Buenos Aires no último terço do século XIX e início do século XX. O seu biógrafo afirma que Núñez chegou a ser o primeiro industrial do mundo em construção de guitarras, cujo mercado superava ao já extenso do valenciano Salvador Ibáñez. 

Sabemos que afirmar ser “o primeiro” é arriscado porque os estudos históricos oferecem surpresas diárias a respeito do que são as “primeiras” cousas, causas e mesmo factos em quase qualquer área. Mas o que sim implica esta afirmação, além da amizade que podia existir entre Prat e Núñez, é que o galego chegou a ser um notável e influente empresário-violeiro, que soube fazer-se um nome e reunir em torno dele o mais seleto das e dos intérpretes da época.

As guitarras de Núñez

Capa da canção para voz e guitarra intitulada Olinda, de Juan Alais, editada por Francisco Núñez com o número de prancha F. 903 N. © 2021 by Isabel Rei Samartim.Capa da canção para voz e guitarra intitulada Olinda, de Juan Alais, editada por Francisco Núñez com o número de prancha F. 903 N. © 2021 by Isabel Rei Samartim.

Francisco Núñez construiu uma das duas melhores guitarras para Juan Alais Moncada (1844-1914), o virtuoso argentino que, como também Prat, frequentava a Casa Núñez. Alais dedicou a Núñez a sua mazurca La Coqueta (Prat, 1934, p. 18). O som das guitarras de Núñez é louvado por Prat, comparando-o às melhores de Torres e outros construtores que não nomeia. E cita integralmente o artigo publicado no jornal El País em 19 de agosto de 1900, que refere o baixo-minhoto como “industrial meritorio” que “no es un vulgar constructor de guitarras”, senão um artista. 

Diz o artigo que da Casa Núñez saem anualmente quarenta mil guitarras e que o violeiro constrói manualmente umas vinte ou trinta cada ano. Que a Casa tem, por um lado, oficina de construção tradicional e, por outro, máquinas que “vomitan” mil guitarras por semana. E daí a variação dos preços, que se acham entre os 3 e os 400 pesos argentinos. Prat informa que as máquinas foram adquiridas na Europa, na viagem que Núñez realizou em 1894. Sem dúvida, a dimensão que atingiu Núñez no negócio dos instrumentos foi espetacular e indica a demanda que havia de guitarras na Argentina de final do século XIX, que se estende pelas primeiras décadas do XX.

Atahualpa Yupanqui com uma guitarra de Núñez. © 2021 by Isabel Rei Samartim.Atahualpa Yupanqui com uma guitarra de Núñez. © 2021 by Isabel Rei Samartim.

Já foram mencionados em artigos anteriores alguns colaboradores de Francisco Núñez. O seu sobrinho Daniel Lago Núñez (n. 1890) chegou a Buenos Aires em 1911 e entrou a aprender o ofício de violeiro na fábrica do tio. Foi o construtor das guitarras Casa Núñez que mais tarde tocaria o grande Atahualpa Yupanqui. Também na página digital Guitarras de Buenos Aires atualmente podem adquirir-se duas guitarras de Daniel Lago do ano 1954 e 1962, e outras duas da marca Antigua Casa Núñez, de 1935 e 1961. Um outro aprendiz de Núñez foi o ponteareano Manuel Domínguez Cambra, a quem dedicaremos o próximo artigo.

Francisco Núñez, editor

Primeira página de Flor de Amancay de Josefina Morisoli. © 2021 by Isabel Rei Samartim.Primeira página de Flor de Amancay de Josefina Morisoli. © 2021 by Isabel Rei Samartim.

Mas, para a história da guitarra também é importante a atividade de Francisco Núñez como editor de música, que Prat não mencionou. E é através da edição que podem seguir-se as pegadas dos sucessores, após o seu falecimento em 22 de junho de 1919, na cidade de Buenos Aires. Assim, o nome da editora que publicou música de María Luisa Anido, Gaspar e Julio Sagreras, Juan Alais, Carlos García Tolsa, Antonio Jiménez Manjón e do próprio Domingo Prat, entre outros, foi evoluindo e evidenciando a passagem do tempo e dos seus editores.

O primeiro selo foi um singelo Francisco Núñez, que mais tarde passou a denominar-se Francisco Núñez y Cía [Sucesores de Francisco Núñez], e Diego, Gracia y Cía [Sucesores de Francisco Núñez y Cía], que mudaram o nome da loja, e também da editora, para Antigua Casa Núñez

Etiqueta de Diego, Gracia y Cía., 1935, guitarra número 2954. © 2021 by Isabel Rei Samartim.Etiqueta de Diego, Gracia y Cía., 1935, guitarra número 2954. © 2021 by Isabel Rei Samartim.

Finalmente esta última foi absorvida pela todo-poderosa Casa Ricordi de Buenos Aires. Uma pesquisa na rede hoje oferece mais de duzentos registos das obras publicadas por estas editoras (ver Pocci). A editora contribuiu para a formação da identidade guitarrística argentina com a publicação das obras de Alais, Bergonzi, Bianqui Piñero, Josefina P. de Morisoli, Antonio Sinópoli, que constituem um foco de composição argentina para guitarra.

Parte da capa da zamba Flor de Amancay composta por Josefina P. de Morisoli e editada por Antigua Casa Núñez. © 2021 by Isabel Rei Samartim.Parte da capa da zamba Flor de Amancay composta por Josefina P. de Morisoli e editada por Antigua Casa Núñez. © 2021 by Isabel Rei Samartim.

Foi Francisco Núñez Rodríguez um galego próspero no Buenos Aires de fim de século, um homem que ensinou o ofício de violeiro a familiares e amigos, deu emprego a boa parte deles e a possibilidade de se desenvolverem de modo independente, com grande ajuda para as famílias que ficavam na Galiza, realizando o sonho do emigrante galego que, além do próprio sustento, procurou deixar no país de acolhida os frutos da sua capacidade laboral e intelectual. Graças a ele, a história da guitarra argentina adquire um peso que agora começa a ser adequadamente valorizado. Na atualidade, a Casa Núñez passou a outras mãos que decidiram manter a memória do genial galego no velho nome do estabelecimento. Assim a atual Antigua Casa Núñez continua a servir instrumentos musicais na rua Sarmiento 1573, de Buenos Aires.

Bibliografia
Antigua Casa Núñez, loja em linha
García Acevedo, M. (1961). La música argentina (durante el período de la Organización Nacional). Buenos Aires: Ediciones Culturales Argentinas.
García Morillo, R. (1984). Estudios sobre música argentina. Buenos Aires: Ediciones Culturales Argentinas.
Guillamón, G. (2012). La actividad musical en Buenos Aires entre 1804-1827: ¿Una práctica configuradora de espacios de sociabilidad de la elite porteña?. Anuario del Centro de Estudios Históricos “Prof. Carlos S. A. Segreti”, 12, pp. 137-151.
Guitarrería de Buenos Aires, loja em linha
Muñoz, R. (1930). Historia de la guitarra. Buenos Aires: Talleres Gráficos de la Penitenciaría Nacional.
Plesh, M. (1996). La música en la construcción de la identidad cultural argentina: el topos de la guitarra en la producción del primer nacionalismo. Revista Argentina de Musicología 1(1), pp. 57-68.
Pocci, V. (2009). Biblioteca della Chitarra e del Mandolino. Blog.
Prat, D. (1934). Diccionario biográfico, bibliográfico, histórico, crítico de guitarras, guitarristas, guitarreros... Buenos Aires: Romero y Fernández. Reedição: Prat, D. (1986). A biographical, bibliographical, historical, critical Dictionary of guitars, guitarists, guitar-makers... With an introduction by Matanya Ophee. Columbus: Editions Orphée.
Rei-Samartim, I. (2020). A guitarra na Galiza. Tese de doutoramento. Universidade de Santiago de Compostela. 
Romanillos Vega, J. L. e Harris Winspear, M. (2002). The vihuela de mano and the spanish guitar. A dictionary of the makers of plucked and bowed musical instruments of Spain (1200-2002)Guadalajara: Sanguino.
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