Vox nostra resonat

A guitarra na Galiza

A família Veiga-Valenzano e a guitarra

Isabel Rei Samartim
jueves, 24 de junio de 2021
Vittorio Reggianini (1858-1938).«La soirée» © Dominio Público Vittorio Reggianini (1858-1938).«La soirée» © Dominio Público
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No passado artigo sobre a violaria galega mencionou-se o luthier Matias Valenzano, de quem ainda resta muito por conhecer. Aguardando as publicações que proximamente verão a luz, aqui figuram alguns dados sobre uma parte dessa família desde a perspectiva guitarrística, que pretendem contribuir para o estudo geral da música galega e das suas e seus compositores.

Retrato de Pascoal Veiga Iglesias. © by Real Academia Galega.Retrato de Pascoal Veiga Iglesias. © by Real Academia Galega.

Tarrío (1998, p. 151) publicou que Pascoal Veiga Iglesias casou com Juana Valenzano em 1865. Em documentos posteriores Veiga aparece  casado com Clotilde Valenzano García. Não sabemos se tem havido algum erro ou é que não deve descartar-se a hipótese de Veiga ter casado com duas das filhas de Matias Valenzano Sierra, cuja origem italiana também não está clara. O costume de casar com a irmã da esposa por falecimento desta vê-se em Laurentino Espinosa, filho de Luísa e sobrinho de Avelina Valladares, cujas duas filhas casam, primeiro uma e à morte desta, a outra, com Antón Losada Diéguez. Em qualquer caso, do matrimónio, ou matrimónios, de Veiga nascem vários filhos com conhecida dedicação musical.

O que não é tão conhecida é a relação desta familia com a guitarra. Pascoal Veiga (1842-1906) foi recebido pela Estudantina Lucense formada em 1878 por João Montes, ajudado por um tal Seoane. Não sabemos se este Seoane será o António Seoane Pampín, regente da afamada e galeguista orquestra de plectro ferrolana Airiños d’a miña terra, fundada em 1900. Montes recebe Pascoal Veiga e o seu Orfeão Corunhês, que toca nas festas lucenses uma mazurca de Montes. Meses mais tarde, Veiga recebe Montes na Corunha, aonde a Estudantina vai convidada e interpreta uma mazurca de Veiga. 

Orquestra "Airiños d'a miña terra". Foto de Pascoal Rey Castro, 1900. © by Centro Galego de Artes da Imaxe.Orquestra "Airiños d'a miña terra". Foto de Pascoal Rey Castro, 1900. © by Centro Galego de Artes da Imaxe.

A formação inicial desta estudantina, ou tuna de Lugo, é de mais de setenta membros divididos em duas secções: a coral, de primeiras e segundas vozes, com aproximadamente 40 membros, e a instrumental, com 36 membros, composta por 8 violinos, 12 guitarras, 2 bandurras, 6 flautas, 2 pares de castanholas, 2 triângulos e 4 pandeiretas (Varela de Vega, 1990, pp. 209-211).

Uma década mais tarde, Pascoal Veiga e o Orfeão Corunhês nº 4 viajam a Paris junto do virtuoso guitarrista ferrolano João Parga Bahamonde, para participar na Exposição Universal de 1889 onde o orfeão ganha a medalha de ouro (El Telegrama, 1889). Não temos notícias, mas seria estranho que Parga viajasse da Galiza, onde estava em plena gira de concertos, a Paris sem tocar alguma vez na cidade da luz, ou no seio da Exposição Universal, que aquele ano celebrava o centenário da Revolução francesa.

Parga levava no programa daquela gira galego-parisina o seu arranjo da Alvorada de Veiga, que tocou no Ferrol, no recital celebrado com a banda de música da Infantaria da Marinha (El Correo Gallego, 1889). Além da conhecida alvorada, Parga interpreta uma rapsódia galega composta por ele, com diálogos em imitação à voz humana. Com esse mesmo programa o ferrolano visita Ourense, Ponte Vedra, Portugal e retorna à Galiza, onde em 23 de outubro toca no lucense Círculo das Artes. Entre as obras clássicas e as do seu mestre Arcas, Parga interpreta de novo a Alvorada de Veiga, por segunda vez em Lugo segundo informa a notícia, a Rapsódia galega e uma terceira obra intitulada Idílio galego, com imitação de lira (El Eco de Galicia, 1889).

Eugénio Santos Sequeiros (1909-2013), Arranjo da «Alvorada» de Veiga para bandurras e alaúdes. © by Herdeiros de Eugénio Santos Sequeiros.Eugénio Santos Sequeiros (1909-2013), Arranjo da «Alvorada» de Veiga para bandurras e alaúdes. © by Herdeiros de Eugénio Santos Sequeiros.

No Entrudo de 1891 apresenta-se em Compostela a Rondalla Regionalista, ou orquestra de plectro cujo regente era o violinista Álvaro Soto Ogando, membro do Sexteto Curros, regente de várias bandas de música e uma das personagens do livro de Pérez Lugín La casa de la Troya. A orquestra interpreta a Alvorada de Veiga, partes de A Flauta Mágica de Mozart, várias moinheiras, entre elas Alfonsiña de Canuto Berea, polkas, mazurcas, jotas e a obra de Soto, Serenata, composta para grupo de plectro. A crónica publicada pela revista La Patria Gallega (1891) dizia que:

No podemos olvidar la afinación y maestría con que la Rondalla interpretó la difícil “Alborada” de Veiga, escuchada con religioso silencio y saludada con nutrida salva de aplausos, en la cual los trinos de las bandurrias y los acompañamientos de las guitarras venían preñados de la poesía de los cantos gallegos, del encanto de las auroras de nuestra edénica región [...]

No ano a seguir, enfiando o espírito galeguista associado a esta orquestra, a Rondalla Regionalista ofereceu uma serenata a Brañas e Murguia, que receberam os músicos nas suas respetivas casas com uns bons petiscos (La Patria Gallega, 1892).

Bertha Worms (1868-1937), «Canção sentimental», 1904. © Dominio público.Bertha Worms (1868-1937), «Canção sentimental», 1904. © Dominio público.

Na velada organizada no Centro Galego de Madrid por Varela Silvari em 1895, em que participou o orfeão e uma orquestra de cordofones formada por mulheres, foi interpretada de novo a Alvorada de Veiga, neste caso pelo orfeão. Outra intérprete que tocou nos seus recitais a afamada Alvorada, pois a sua inclusão desta obra nos programas era sucesso certo na época, foi a virtuosa bandurrista de nome artístico Miss Zaida, que tocou na Galiza em sucessivas ocasiões nas últimas décadas do século XIX. Dedicaremos nas próximas semanas outro artigo a esta artista, entretanto, na resenha dum recital em 1897 pode ler-se (La Opinión, 1897):

Porque Mis Zaida es una bandurrista notable, que siente el arte con todas sus delicadísimas emociones, [...] Hizo maravillas ejecutando el "Ave María" de Gounod, la "Alborada de Veiga" y otros números [...] La afamada artista recibió estruendosa ovación que con ella compartieron los hábiles guitarristas que la acompañan.

O virtuoso bandurrista do Ferrol, Pastor Hernández, também acaba uma das suas atuações com a Alvorada de Veiga, sendo acompanhado por um pianista. Nessa mesma velada, que decorria em 1900, participava a orquestra de plectro de António Seoane Pampín, formada por dezesseis moços da localidade, e que seria conhecida pelo nome de Airiños d’a miña terra. Tocam o passodoble A Hernández, de Seoane, e a valsa En una romería, de R. T. (?). Também os irmãos Pio e Joaquim Árias Miranda, membros da orquestra de plectro do Sporting Club da Corunha, tocam com Pastor Hernández em trio para bandurra, alaúde e guitarra a obra Revêrie au Bord de la Mer de Jacques Offenbach (El Correo Gallego, 1900).

Três anos mais tarde, em 1903, o virtuoso guitarrista de Ginzo de Límia, Eulógio Gallego Martínez, estudante no Seminário e membro da secção de música do Círculo Católico de Compostela, atua em colaboração do mestre Manuel Valverde, que dirige o orfeão do Círculo. No programa do concerto está o Ave Maria de Prudêncio Piñeiro e a Alvorada de Pascoal Veiga (Moar, 1903). Esta velada foi qualificada pelo cronista de “regionalista”, por ter sido integrada, na sua maior parte, por obras de autores galegos. Ainda hoje não entendemos que o facto de interpretar autores e autoras galegas seja uma excepção, e não a norma da prática diária de música na Galiza.

José Castañeda Jurado. © by Juan Bautista Varela de Vega.José Castañeda Jurado. © by Juan Bautista Varela de Vega.

José Castañeda, guitarrista de Mondonhedo, antigo vice-presidente da Estudantina espanhola que viajou a Paris em 1878 e integrante da Estudantina Lucense, era em 1912 regente do Orfeão Mindoniense em 1912 (Álvarez Lebredo, 2007, p. 111). Um ano mais tarde, Castañeda e o orfeão recebem com música os restos do mestre Veiga, finado em 1906, que viajam desde Madrid para serem enterrados em Mondonhedo (Cora e Pardo, 1996, p. 43).

E em 1916, o sobrinho José Adolfo Veiga Paradis é premiado nos Jogos Florais da Ponte Vedra, junto com outros intelectuais e músicos como Jesus Rey Alvite e Avelino Rodríguez Elias. Veiga Paradis leva um Accessit pela composição Carmucha, uma rapsódia galega para orquestra, com redução de piano. Nessa mesma categoria, o barbeiro, guitarrista e compositor ourensano Ramon Gutiérrez Parada (1874-1945) ganha uma Menção pela sua obra intitulada Unha festa n’o pinar (La Correspondencia Gallega, 1916).

Pieza enlazada

Mas, além da repetida Alvorada, e do Hino galego de Pascoal Veiga, que também foi muito tocado, a relação dos Veiga-Valenzano com a guitarra estreita-se na geração dos filhos, especialmente com o violinista Augusto Veiga Valenzano, que en 1894 abre uma Escola de Música em Betanços, em 1894. Álvarez López (2004, p. 11) indica que na escola de Augusto Veiga ensinava-se solfejo, canto, violino e piano. É possível que esta afirmação reproduza a informação dos jornais da época. Mas curiosamente, o primeiro produto desta escola é uma orquestra de plectro intitulada Rondalla 1895, dirigida por Augusto Veiga e integrada por doze moços a tocarem bandolins, bandurras e guitarras. Não deixa de surpreender que entre as especialidades ensinadas na Escola não se incluam os cordofones dedilhados, que parecem ter bom número de alunos e, aliás, serem as melhor preparadas para realizar atuações.

Nessa escola o professor de violino era Júlio Veiga Valenzano, irmão pequeno de Augusto. O professor de piano era o amigo da família Juan Ponte Blanco. Ambos os músicos faziam também parte da orquestra de cordofones como professores. A primeira apresentação da orquestra de Augusto Veiga Valenzano foi no Círculo Católico de Betanços, em 1895, onde interpretam o conhecido Minueto de Boccherini e a moinheira La escala de Pascoal Veiga. Regista-se um aumento do número de integrantes e atividade continuada desta orquestra até 1897. Depois Augusto Veiga, instalado em Betanços, continuará organizando orquestras de plectro. Mais para a frente, o pianista Ponte Blanco abre outra escola de música em que também há orquestra de cordofones.

Noutra ocasião terá de ser abordado, com muita paciência, o tema das orquestras de plectro e guitarras na Galiza. No próximo mês de setembro, a revista Anuario Brigantino incluirá um artigo sobre esta questão na área de Betanços-Ferrol-Corunha, autêntico Triângulo das Bermudas, onde o fervilhar guitarrístico atingiu, nas últimas décadas do século XIX e primeiras do XX, elevados níveis de intensidade na prática musical.

Bibliografia
Álvarez Lebredo, C. (2007). Música e sociedade en Ribadeo (1900-2000). Lugo: Deputación Provincial.
Álvarez López, M. (2004). Rondallas brigantinas. 25 años de la agrupación musical "Carlos Seijo". Betanços: LUGAMI Artes Gráficas.
Cora, X. d. e Pardo de Neyra, X. (1996). Pascual Veiga. Santiago de Compostela: Xunta de Galicia.
El Correo Gallego (1878). Ferrol: 3 de agosto, p. 4..
El Correo Gallego (1889). Ferrol: 12 de outubro, p. 2.
El Correo Gallego (1900). El concierto del domingo. Ferrol: 30 de maio, p. 1.
El Eco de Galicia. Diario de la tarde (1889). Lugo: 23 de outubro, p. 3.
El Telegrama (1889). Corunha: 15 de agosto, p. 1.
La Correspondencia Gallega (1916). Juegos Florales. Ponte Vedra: 24 de agosto, p. 3. La Opinión. Diario de Pontevedra (1897). Concierto. Ponte Vedra: 14 de setembro, p. 3.
La Patria Gallega. Boletín-revista. Órgano oficial de la Asociación Regionalista (1891). Compostela: 15 de abril, p. 13. Disponível em: http://biblioteca.galiciana.gal.
La Patria Gallega. Boletín-revista. Órgano oficial de la Asociación Regionalista (1892). Compostela: 15 de janeiro, p. 17.
Moar, J. M. (1903). Erráticas. Gaceta de Galicia. Compostela: 10 de dezembro, p. 3.
Tarrío, J. M. (1998). Casamientos en la vieja Coruña. Algunos matrimonios celebrados en la parroquial de Santiago durante los siglos XVIII y XIX. Anuario Brigantino, 21, pp. 133-166.
Varela de Vega, J. B. (1990). Juan Montes. Un músico gallego. Corunha: Deputação Provincial.

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