Vox nostra resonat

A guitarra na Galiza

Parga, um guitarrista galego de máximo nível europeu (2)

Isabel Rei Samartim
jueves, 26 de agosto de 2021
Juan Parga Bahamonde © Arquivo do Museo de Ponte Vedra Juan Parga Bahamonde © Arquivo do Museo de Ponte Vedra
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Com 46 anos, na sua maturidade artística, visitou o virtuoso João Parga Bahamonde a sua terra, Ferrol, e outras cidades da Galiza. Era o fim do mês de junho de 1889 quando começa a atividade frenética dos diários galegos anunciando a sua chegada e gira galega (El Regional, 1889a). 

Pieza enlazada

Parga tocou com a guitarra de nove cordas recém construída em Málaga por Antonio Lorca, quem gravou na placa “Al eminente guitarrista D. Juan Parga. 9 junio 1889. Málaga” (Prat, 1934, pp. 237-238). O ferrolano visitou primeiro Corunha onde passou quase um mês tocando nas diferentes sociedades de lazer, colaborando com os orfeões de El Eco e Liceo Brigantino.

A Torre Eiffel e a Exposição Universal de Paris em 1889

A Exposição Universal de Paris em 1889 com a entrada pela Torre Eiffel. © Dominio público / Wikipedia.A Exposição Universal de Paris em 1889 com a entrada pela Torre Eiffel. © Dominio público / Wikipedia.

Era o ano de Paris. Em 31 de março tinha sido inaugurada a Torre Eiffel dentro das comemorações do Centenário da Revolução Francesa. E a partir do 6 de maio até ao 31 de outubro teria lugar a Exposição Universal (BIdE). A Torre Eiffel era a porta da entrada à exposição. Em agosto Parga embarca com Pascoal Veiga rumo a Paris, em companhia do Orfeão Corunhês n.º 4 que ia participar no Certame de Orfeões da exposição onde, finalmente, ganharia a medalha de ouro (El Telegrama, 1889; Gómez e Cancela, 2017, p. 59). Como sabemos, Parga deixou dito que ofereceu concertos em vários países europeus, entre eles a França. Não temos ainda constância dos possíveis concertos que Parga ofereceu em Paris, mas não duvidamos de que a sua viagem teria mais algum motivo do que acompanhar o seu amigo Veiga.

O recebimento de Parga na Galiza

Retrato de Juan Parga Bahamonde. Detalle. © Arquivo do Museo de Ponte Vedra.Retrato de Juan Parga Bahamonde. Detalle. © Arquivo do Museo de Ponte Vedra.

De volta, vai ao Ferrol. A imprensa anuncia o programa do recital em colaboração com a banda de música da Infantaria da Marinha. A crónica deste concerto, publicada no dia a seguir, deixa parágrafos como o seguinte (El Correo Gallego, 1889):

Parga ejecutó, con la maestría inimitable con que él sabe hacerlo, los diferentes números anunciados en el programa. El final de cada uno de ellos fué una completa ovación para el artista ferrolano.
Parga sabe arrancar á la guitarra notas y acentos que conmueven, que arrastran, que seducen y subyugan al público, trasportándolo á las regiones del arte y conmoviendo las fibras todas del corazón.

Íncipit da «Polonesa» de J. Arcas com o selo de Javier Pintos. © by Arquivo do Museu da Ponte Vedra.Íncipit da «Polonesa» de J. Arcas com o selo de Javier Pintos. © by Arquivo do Museu da Ponte Vedra.

No concerto tinham soado várias obras de Arcas, a quem Parga considerava seu mestre, uma das obras de sabor andaluz de Parga Aires andaluces, e o arranjo seu da Alvorada de Pascoal Veiga, mais a Rapsódia Galega "con imitaciones de gaita y un diálogo musical entre una vieja y un viejo". A pesar de que no Fundo Pintos Fonseca, do Museu da Ponte Vedra, se conservam cinco obras de Parga, todas fazem parte do grupo de peças publicadas em Málaga e nenhuma delas corresponde à série de obras galegas que o ferrolano tocou na Galiza.

O repertório galego

Em Lugo fazem-se eco da interpretação da Alvorada de Veiga no Ferrol e anunciam a chegada de Parga comentando que vai de passagem para Ourense, Ponte Vedra e Portugal (El Regional, 1889b; El Lucense, 1889a). Em 23 de outubro toca no Círculo das Artes com o programa seguinte (El Eco de Galicia, 1889a):

Primera parte
1. Fantasía clásica, Lejos de mi pátria, Parga.
2. Rapsodia malagueña, Parga.
3. Rapsodia gallega, con un diálogo musical entre una vieja y un viejo, Parga.
Segunda parte
1. Fantasía sobre motivos de Traviata, Arcas.
2. Idílio gallego, con imitación de lira, Parga.
3. Segunda vez que el artista tiene el honor de presentar á sus paisanos la bellísima y clásica Alborada del maestro Veiga, arreglada para guitarra, Parga.
4. Potpourrí de aires nacionales, y el juguete La guitarra invisible.

Três dias mais tarde, Parga toca no Casino lucense um programa semelhante ao anterior, mas com obras novas que substituem algumas das já interpretadas (El Eco de Galicia, 1889b). Essas obras eram: Serenata Veneciana, que é o arranjo de Parga da "Barcarola Veneziana" op. 30, n.º 6 para piano da série Canções sem palavras (Lieder ohne Worte) de Gustav Mendelsshon. Também interpretou as suas Gran jota aragonesa, uma Tanda de walses, um Ramillete de juguetes e Tango burlesco. Na crónica deste concerto a modo de resumo pode ler-se (El Regional, 1889c):

El Sr. Parga ha alcanzado en esta ciudad éxito igual al que obtuvo en Ferrol y la Coruña, segun vimos en la prensa de ambas localidades, y al que alcanzó en cuantas poblaciones se ha presentado haciéndose aplaudir y admirar por sus excepcionales condiciones; pues que para él tan fáciles son nuestros hermosos y sentidos aires populares como las más delicadas fantasías de los maestros clásicos.

Finalmente, Parga tocou três concertos em Lugo, sendo o último para o Orfeão Galego de Montes, de quem recebeu a famosa balada, As lixeiras anduriñas, com letra de Salvador Golpe, que no ano a seguir seria premiada no Certame musical da Corunha (El Lucense, 1889b). Ao falarmos de Montes trataremos de novo este assunto em próximos artigos.

Em 12 de novembro Parga toca no Liceu de Vigo. O programa inclui a grande fantasia clássica Lejos de mi patria, a Rapsódia galega com diálogo, a Alvorada de Veiga e um Idílio galego (Faro de Vigo, 1889a). Depois vai à Ponte Vedra e Compostela para retornar a Vigo.

Barros (2015, p. 184 e 191) dá conta de dois concertos de Parga na Ponte Vedra, um deles no Recreo de Artesanos. Por Landín (1999, p. 313) sabemos que tocou no Casino da cidade. O diário do guitarrista pontevedrês Javier Pintos Fonseca confirma as datas de 18 de novembro quando chega Parga, e os dias 22 e 24, sexta-feira e domingo, quando realiza os seus concertos no Liceo Casino e no Recreo de Artesanos.

Com a fama de guitarrista erudito, em 29 de novembro chega Parga a Compostela, visita a redação do jornal Gaceta de Galicia e toca em 1 de dezembro. A crónica do concerto destaca a série de valsas, a Alvorada de Veiga e a Rapsódia galega (Gaceta de Galicia, 1889a):

en la que admirablemente imita en la guitarra á la gaita y tamboril y un diálogo entre dos viejos que resulta jocoso y entretenido. También llamó la atención una sonata imitación a cuarteto, en la cual se oyen á un tiempo mismo los distintos cantos y armonías de diferentes instrumentos".

Anúncio dos programas de concerto em Compostela. Gaceta de Galicia, 6 de dezembro de 1889. © by Galiciana Dixital.Anúncio dos programas de concerto em Compostela. Gaceta de Galicia, 6 de dezembro de 1889. © by Galiciana Dixital.

No fim de semana terá agendados mais dois concertos, o sábado no Recreo Artístico e Industrial e o domingo, o anunciado do Casino. As novidades que aparecem nestes programas são que a Tanda de walses agora intitula-se ¡Adios Galicia!, a Rapsódia galega aparece intitulada Fiesta Gallega "con efectos de gaita, tamboril y un diálogo musical jocoso, entre una vieja y un niño", o arranjo da Alvorada de Veiga contém "efectos de orquesta", o potpourri de ares nacionais é "de Jota y demás aires nacionales", o arranjo da Serenata Veneciana tem "imitación de Lira" e o Carnaval de Venecia tem variações "burlescas" (GdG, 1889e). Estes adjetivos refletem algo mais do que a necessidade de fazer variações aparentes no programa para evitar o desinteresse do público, algo que era próprio da época. Eles descrevem bem o tipo de obras virtuosísticas e também o carácter emocional do próprio Parga. São reflexo do modo em como o autor sentia essas obras e qual era a sua melhor definição, em breves palavras, para as mostrar ao público. Refletem a um tempo capacidade de síntese, de emoção e de promoção do artista.

Em síntese, esta é uma relação das obras de música galega, ou ligada à Galiza, compostas ou arranjadas por Parga que aparecem na hemeroteca galega:

1. Lejos de mi patria, fantasia clássica
2. Rapsodia gallega. Fiesta Gallega
3. Idílio gallego, con imitación de lira
4. Alborada de Pascual Veiga, arranjo de Parga
5. ¡Adios Galicia!, série de valsas
6. Tango burlesco, possivelmente a obra que depois seria publicada sob o título Del Ferrol á la Habana.

O amor a Parga

Desde o Pacto de El Pardo (1885), nas vésperas da morte do rei da Espanha Afonso XII, informalmente realizado entre os presidentes Cánovas (Partido Conservador) e Sagasta (Partido Liberal), o governo do Estado foi distribuído coordenadamente entre os dous partidos, inaugurando assim o turnismo, ou pacto de governo para favorecer a sucessão monárquica. Como ação derivada do mesmo Pacto, nesse mesmo ano a morávia Maria Cristina, rainha e segunda esposa de Afonso XII, assume a regência da Espanha com vistas a prolongar a Monarquia até à maturidade do filho, Afonso XIII, que não se produzirá até 1902. Nesse período inicia-se o processo de assentamento dos símbolos espanhóis, alguns deles já estabelecidos com Isabel II, e começa assim o que poderia denominar-se a espanholização da Espanha. Como símbolo musical, o principal expoente foi a promoção da música castelhano-andaluza tocada na guitarra.

Com Parga aprecia-se o efeito que tem sobre a cultura geral galega a construção, ainda incipiente, dessa guitarra española. Jesús Barreiro Costoya, poeta e jornalista, colaborador em vários jornais galegos, realiza uma extensa crónica em que emprega este sintagma com uma migalha de prevenção, pensando que a música galega somente soa bem na gaita, e admirando o resultado de Parga (Gaceta de Galicia, 1889b):

Nada debiera decirse de las composiciones gallegas, sabiendo que Juan Parga lo es, sino fuese la ingratitud con que parece á primera vista que debe responder la guitarra española á la música regional nuestra, propia solamente para ser ejecutada en la gaita celta, tan popular y vulgarizada. Pero oyéndole interpretar con arte y sentimiento inconcebibles la "Alborada de Veiga", su "Idilio galaico" y la preciosa "Fiesta gallega", se convence uno cada vez más de que nuestra música regional es armónica, melodiosa, sublime.

Poema de Manuel José Lema dedicado a Parga. "El Compostelano", 10 de fevereiro de 1927. © by Galiciana Dixital.Poema de Manuel José Lema dedicado a Parga. "El Compostelano", 10 de fevereiro de 1927. © by Galiciana Dixital.

Nos dias a seguir, vários músicos compostelanos organizaram um evento homenagem ao nosso guitarrista. Assim em 11 de dezembro realizou-se o concerto no local do antigo Café del Siglo da rua do Vilar. Tocou um septimino formado pelo quarteto habitual de José Courtier formado também por Manuel Valverde, Ángel Brage e Santos Ferreras, mais três componentes que não se mencionam na crónica, mas que bem puderam ser os irmãos Gómez Veiga "Curros" (José e Gerardo) e Luís Villaverde, Riol ou algum pianista compostelano como Lens Viera (Cancela, 2013, p. 81-83). Como a noite estava de inverno, depois do evento os músicos e as amizades acabaram no quarto do hotel de Parga, onde convidou os visitantes e tocou várias obras como agradecimento. Ali pronunciaram discursos Manuel Bibiano Fernández, diretor da Gaceta de Galicia, Barreiro Costoya e o violinista amador, membro da Tuna e do Sexteto Curros, Mariano Fernández Tafall.

Em 14 de dezembro, Parga como catedrático de música do Conservatório de Madrid oferecia o seu concerto de despedida em obséquio ao alunado da Universidade, em colaboração também como o quarteto Courtier. A crónica desta última atuação não oferece dúvidas (Gaceta de Galicia, 1889c):

Pocas veces hemos oído más salvas de aplausos tan prolongados y repitidos [sic] y ruidosos como los que se tributaron al gran guitarrista al finalizar cada una de las piezas.
Dos horas duró el concierto, y todos lamentábamos que hubiesen transcurrido rápidas y fugaces; pues fueron dos horas felices, en las que el alma se extasiaba de gozo, y rebosaban de júbilo nuestros corazones, y la belleza artística aparecía en todo esplendor.
Se ha escrito tanto del amigo Parga, han dicho de él tales cosas los más galanos é inspirados escritores, que nada nos atrevemos á añadir nosotros, temiendo incurrir en redundancias. Pasma, asombra, electriza, fascina con la guitarra. Es un portento, un prodigio, un genio.

No dia a seguir, 17 de dezembro, Parga sairá de Compostela caminho de Vigo, onde toca no Café Colón o dia 19, com destino final em Málaga (Gaceta de Galicia, 1889d; Faro de Vigo, 1889b). Em 1927, o poeta e jornalista Manuel José Lema González (Betanços, ca.1866 - Compostela, 1928) voltava a publicar um poema escrito várias décadas antes, em lembrança do virtuoso (El Compostelano, 1927):

Tocad' as gaitas gaiteiros
Que s' atopa entre nos Parga,
O guitarrista de sona
Qu' arranca d' a sua guitarra
As notas mais garimosas
Que poden ser escoitadas
Pol-os que sinten bulir
A lus d' o Arte n' a y-alma.
Vinde, vinde rapaciños
A tocarlle unh' alborada
O xenio que levantou
O nome d' a nosa pátrea
Levand' a terras alleas
As nossas dolciñas cántegas.
Espiñas, follas e frores
Come Carbaxall lles chama.
Vinde, vinde escoitar oxe
Esta palleta gallarda
Tenriña, rebulidora
Do nosso paisano Parga,
Quen chegou ¡parece grola!
A facer da sua guitarra,
Sin roncón e sin punteiro
Perfeutamente unha gaita.

 Bibliografia

Barros Presas, N. (2015). La vida musical en la ciudad de Pontevedra (1878-1903), v. I. Tese de doutoramento. Universidade de Oviedo.
BIdE. Exposition Universelle de 1889, Paris.
Cancela, B. e Cancela, A. (2013). La saga Courtier en Galicia. Santiago de Compostela: Alvarellos Editora.
El Compostelano (1927). O eminente guitarrista gallego Parga. Santiago de Compostela: 10 de fevereiro, p. 1.
El Correo Gallego (1889). Ferrol: 13 de outubro, p. 2
El Eco de Galicia (1889a). Lugo: 23 de outubro, p. 3.
El Eco de Galicia (1889b). Lugo: 26 de outubro, p. 3.
El Lucense (1889a). Lugo: 17 de outubro, p. 2.
El Lucense (1889b). Un rato á música. Lugo: 29 de outubro, pp. 2-3.
El Regional (1889a). Lugo: 30 de junho, p. 1.
El Regional (1889b). Lugo: 15 de outubro, p. 2.
El Regional (1889c). Lugo: 28 de outubro, p. 4.
El Telegrama (1889). Corunha: 15 de agosto, p. 1.
Faro de Vigo (1889a). Concierto en el Liceo. Vigo: 12 de novembro, p. 3. La Hemeroteca de Faro de Vigo en CDROM. Recurso electrónico.
Faro de Vigo (1889b). Un concierto. Vigo: 18 de dezembro, 3. Disponível em: La Hemeroteca de Faro de Vigo en CD-ROM. Recurso electrónico.
Gaceta de Galicia (1889a). Santiago de Compostela: 2 de dezembro, p. 3.
Gaceta de Galicia (1889b). Juan Parga. Santiago de Compostela: 9 de dezembro, pp. 2-3.
Gaceta de Galicia (1889c). El concierto del sábado. Santiago de Compostela: 16 de dezembro, p. 3.
Gaceta de Galicia (1889d). Santiago de Compostela: 17 de dezembro, p. 2.
Gómez, S. e Cancela, A. (2017). Chané. O nacemento da música popular galega. Compostela: aCentralFolque. Centro galego de música popular.
Landín Tobío, P. (1999). De mi viejo carnet. Ponte Vedra: Deputación Provincial de Pontevedra.
Prat, D. (1934). Diccionario biográfico, bibliográfico, histórico, crítico de guitarras, guitarristas, guitarreros... Buenos Aires: Romero y Fernández. Reedição: Prat, D. (1986). A biographical, bibliographical, historical, critical Dictionary of guitars, guitarists, guitarmakers... With an introduction by Matanya Ophee. Columbus: Editions Orphée.
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