Vox nostra resonat

A guitarra na Galiza

A guitarra «española» e o seu efeito na Galiza (1)

Isabel Rei Samartim
jueves, 2 de septiembre de 2021
Guitarra hitita, ano 3300 antes da nossa Era © by blogspot.com Guitarra hitita, ano 3300 antes da nossa Era © by blogspot.com
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No anterior artigo tratou-se a figura do eminente guitarrista galego João Parga Bahamonde (1843-1899). 

Ali foi brevemente comentado o processo que ele viveu em primeira pessoa relativo à criação de uma guitarra española, adjetivo que simplifica uma elaborada série de processos históricos e musicais que mudaram a visão do instrumento na Espanha e afetaram profundamente à guitarra na Galiza. 

Pieza enlazada

Na construção do novo símbolo musical tiveram capital importância as visões externas que descreveram a península com olhos mais capitalistas do que estrangeiros.

Com esta série de artigos, que hoje começamos, esperamos explicar a origem e os diversos significados ao longo da história do adjetivo “espanhola” aplicado à imemorial e indo-europeia guitarra/viola. 

Tenha-se em conta que, até agora, a mais antiga representação de um guitarrista é a do baixo-relevo hitita (atualmente a Anatólia e partes do Líbano e a Síria) datado há mais de 3 mil anos. 

Estela funerária de Lutátia Lupata, Lusitânia, século II da nossa era. © by Dominio Público / Ceres.Estela funerária de Lutátia Lupata, Lusitânia, século II da nossa era. © by Dominio Público / Ceres.

E também, até agora, a mais antiga representação de um cordofone dedilhado achada na península ibérica é a estela funerária da menina lusitana Lutátia Lupata, das primeiras décadas do século II (anos 101 a 125) da nossa Era.


Da Introdução à tese A guitarra na Galiza

Começaremos por colocar algumas questões prévias e necessárias. Nos documentos textuais referentes à música ou que contêm termos musicais podem dar-se várias situações que revelam a falsa relação entre nome, instrumento e origem: Um único nome pode designar instrumentos diferentes (cítara), vários nomes podem referir o mesmo instrumento (viola, guitarra, violão), há palavras que adjetivam pela procedência mas não pela origem (guitarra inglesa, viola francesa), e há adjetivos que imprimem uma marca de cor nacional (gaita galega, guitarra espanhola). Para cúmulo de hipóteses é bom lembrar que nos documentos antigos pode haver, como hoje, erros e confusões, sendo labor da pessoa investigadora a sua deteção e interpretação.

Por motivos diferentes dos musicológicos, é comum vermos associados aos nomes dos instrumentos alguns adjetivos de procedência ou de identidade que, por erro, são modernamente tomados como de origem (english guitar, viola francesa, chitarra francese, guitarra española, guitarra portuguesa). Os adjetivos de procedência aplicados aos instrumentos têm diferentes significados segundo a época em que foram enunciados. Para entender o que realmente querem dizer temos de estudar o contexto de cada um deles. O modo em como façamos isso determinará o nosso resultado.

Proposta democrática de leitura dos contextos

We have to be aware, that our picture of the past is determined by our modern way of thought and our contemporary perspective. Schlegel e Lüdtke (2011, p. 94)

Guitarra española y vandola... de J. Carles Amat, 1745, capa. © by Biblioteca de Catalunya.Guitarra española y vandola... de J. Carles Amat, 1745, capa. © by Biblioteca de Catalunya.

Lemos o passado com os olhos do presente e por isso nos custa entender os contextos sociais e políticos que rodearam e mesmo foram elemento central de desenvolvimento da guitarra e da sua música. É imprescindível a prudência, mergulhar na história e realizar as conexões necessárias para entender, por exemplo, que a guitarra española de Carles Amat se expressava em castelhano e em catalão, ou para ver as causas da explosão da literatura para chitarra spagnuola na Itália do século XVII, ou como chega a english guitar a Portugal, ou porquê se abandona o termo castelhano vihuela, porém permanece até hoje o equivalente galego-português viola, e o seu derivado, violão.

A análise das palavras e, em geral, dos textos antigos, oferece dificuldades interpretativas que podem passar despercebidas a quem não tiver em conta as armadilhas da linguagem, a evolução das línguas e os contextos em que os documentos históricos foram redigidos. Para descobrirmos as suas chaves devemos fazer a interpretação dos textos com o máximo cuidado, procurando entender a função e o significado que as palavras tinham em cada uma das épocas históricas. Conceitos como 'nação', 'popular', 'guitarra' têm tido diversas interpretações ao longo dos tempos e qualquer pesquisa séria remete a um passado imemorial e a uma viagem pelas gavetas da documentação histórica onde os significados destas palavras se multiplicam.

A península Hispânia/Hespanha/Espanha

Dado que o vocábulo guitarra se tem associado intensamente durante algumas épocas históricas ao nome Espanha, será interessante explicar a etimologia e os seus diversos significados ao longo da história. Resumidamente, Espanha é nome geográfico e, por outro lado, político-administrativo. Provém do latim Hispania, o qual provém do grego Spania. Os nomes Spania e Hispania são geográficos, isto é, designam um território não político que é o da península ibérica no seu conjunto. Antes de Spania/Hispania, a península no seu conjunto já fora batizada como Ibéria e como Hespéria, o qual define uma especificidade na natureza do território. Então, a península em que vivemos tem nome próprio desde há muito tempo. O mais recente deles poderá ter mais de 2 mil anos. Porquê será isto?

Possivelmente o corônimo Espanha, bem como Itália, Peloponeso ou Iucatã (Yucatán), por nomear alguns bem sabidos, tenha sido originado pela perspetiva das navegações, nos tempos em que conhecer os mares era conhecer também as características geográficas das costas. Reparemos na elevada quantidade de penínsulas, ilhas e istmos que povoam o mar Mediterrâneo e o Atlântico nas costas europeias, que constituem autênticos obstáculos marinhos para a navegação. O significado de península é 'quase ilha'. Talvez por isso as penínsulas foram tomadas desde a antiguidade clássica como um tudo, um conjunto indiviso. Uma das fontes mais antigas que fazem referência à península Hispânia é a poesia de Quinto Ênio, o grande poeta épico romano, ca. 200 anos antes da nossa Era (Schulten e Bosch, 1922-1959, III, p. 36). Esse significado geográfico designou também uma entidade política dentro do império romano, a Diocese da Hispânia, que abrangia todo o perímetro e cuja divisão em províncias foi adaptando-se à configuração dos povos ou, por palavras de Júlio César, das nationes que habitavam a península.

Uma vez derrotado o Império Romano, é o significado geográfico o que permanece. Ele espalha-se ao longo da nossa história por todo o tipo de documentos sociais, políticos, literários e musicais. Vejam-se os estudos de Eugenio López-Aydillo (1923), Alicio Garcitoral (1945) e José Antonio Maravall (1981). Os nomes romanceados nas suas três formas medievais: Espanha/España/Espanya, conservam o sentido geográfico que na Idade Moderna irá adquirindo outras formas (o plural Espanhas) e, paralelamente, outros significados, como o nome do atual Reino de España, que refere, como sabemos, só uma das várias entidades político-administrativas independentes que existem hoje na península Espanha.

Referências guitarrísticas históricas da expressão guitarra española

Tractat breu... de J. Carles Amat, 1745, fólios 38-39. © by Biblioteca de Catalunya.Tractat breu... de J. Carles Amat, 1745, fólios 38-39. © by Biblioteca de Catalunya.

A referência mais antiga é o livro de Carles Amat: Guitarra española... de cinco órdenes datado por volta de 1596 (Hall, 1980). O adjetivo española, que com certeza está a referir a península Espanha, é de significado geográfico, de pertença à cultura hispânica peninsular. Atribuir qualquer intenção nacionalista espanhola ao médico, escritor e guitarrista catalão Joan Carles Amat (1572-1642), quando o Reino de Castela tem somente umas poucas gerações de reis e rainhas, e o Reino de Espanha nem se imagina, parece um pouco atrevido.

Para sermos fiéis aos dados documentais comprovaremos que nessa altura os títulos dos reis de Castela não falavam do “Rei de Espanha”, porque tal reino não existia. Eles eram uma longa lista de nomes dos diferentes reinos que o conformavam (Rei-Samartim, 2020, pp. 81-85). Havia era Reinos, em plural, da península Espanha e, se governavam outros territórios, esses também faziam parte do título Real e do nome do Reino: Flandres, Tirol, Milão, Borgonha, Jerusalém, Duas Sicílias (união política dos reinos de Nápoles e Sicília), Índias orientais, todos eram nomes que acompanhavam Galiza, Castela, Toledo, Sevilha, Algarves (em plural), Leão, Aragão, Granada, Gibraltar. Nomear o título completo do francês Filipe V em 1716 ocupou na tese A guitarra na Galiza umas 12 linhas de texto digital moderno. Não tinham ainda a síntese Reino de España.

Nesse século XVIII, o texto de Carles Amat volta a publicar-se em duas línguas, na procura da compreensão do público a que se dirige. O título completo publicado em Girona por Gabriel Bró em 1745 é Guitarra española y vandola, en dos maneras de guitarra castellana y cathalana de cinco órdenes. A parte catalã intitula-se: Tractat breu, y explicacio dels punts de la guitarra, en Ydioma Cathalà, ajustat en esta ultima impressio de la present obra. A necessidade de realizar uma versão em catalão do texto vem explícita na capa da parte catalã:

Pera que los naturals que gustaran de apendrer, y no entendràn la explicasio Castellana pugan satisfer son gust amb est breu, y compendiós estil.

Em tradução nossa: "Para que os naturais [pessoas da nação catalã] que quiserem aprender e não entenderem castelhano, possam satisfazer o seu gosto com este breve e completo texto", isto é, que consigam aprender a tocar guitarra empregando o texto amatiano de modo que o método seja entendido tanto nos territórios de fala castelhana quanto nos de fala catalã. Tenha-se em conta que o castelhano como única língua veicular na judicatura e na administração catalãs tinha sido introduzido de modo recente, em 1716, pelo rei de Castela, o antedito Filipe V, de nome original Philippe, da Maison de Bourbon, através do Decreto de Novo Plano, cujo texto legal foi publicado em 1742.

O fracasso na aplicação dos Decretos de Novo Plano aconteceu durante os reinados de Filipe V, Fernando VI, Carlos III e Carlos IV que, finalmente, em 1808 perderia a coroa em favor de José Bonaparte. O fracasso legal dos Bourbons, unido ao pouco tempo que reinou o irmão de Napoleão, favoreceram que no século XIX não se consolidasse na Espanha política um Estado uniforme em língua e cultura, como o francês. 

Pieza enlazada

A contundente resposta ao domínio napoleónico dos diferentes povos peninsulares, a começar pelo galego que se levantou em armas, como o guitarrista José Dionísio Valladares tratado em artigos anteriores e criador da extensa coleção de partituras da família Valladares, teria mais a ver com a defesa das nações ibéricas ante o esperável extermínio francês, do que com uma pretensa unidade do recém-nado Reino da Espanha.

Continua no próximo artigo.

Bibliografia

Carles Amat, J. (1745). Guitarra española y vandola, en dos maneras de guitarra castellana y cathalana de cinco órdenes. Girona: Gabriel Bró.
Decreto de Novo Plano do Principado da Catalunha (1716; 1742) e outros documentos:
Garcitoral, A. (1945). Interpretación de España. Historia y sociología. Buenos Aires: Claridad.
Hall, M. (Ed.). (1980). Guitarra Española, Y Vandola En Dos Maneras De Guitarra, Castellana, Y Cathalana De Cinco Ordenes Complete Facsimile Edition. Mónaco: Editions Chanterelle S. A.
Hittite Guitar of 3300 Years Ago. Ancient Anatolia Blogspot.
http://ancient-anatolia.blogspot.com/2011/07/hittite-guitar-of-3300-years-ago.html.
López-Aydillo, E. (1923). Los cancioneros gallego-portugueses como fuentes históricas. Revue hispanique. Recueil consacré à l'étude des langues, des littératures et de l'histoire des pays castillans, catalans et portugais, 57(132), pp. 315-619.
Lutátia Lupata: Estela funerária. Ceres. Ministerio de Cultura y Deporte. Espanha.
Maravall Casesnoves, J. A. (1981). El concepto de España en la Edad Media. Madrid: Centro de Estudios Constitucionales.
Rei-Samartim, I. (2020). A guitarra na Galiza. Tese de doutoramento. Universidade de Santiago de Compostela.
Schlegel, A. e Lüdtke, J. (2011). Die Laute in Europa 2: lauten, gitarren, mandolinen und cistern. The Lute in Europe 2: lutes, guitars, mandolins and citterns. Menziken: The Lute Corner.
Schulten, A. e Bosch Gimpera, P. (Eds.). (1922-1959). Fontes Hispaniae antiquae. Barcelona: Bosch.
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