Vox nostra resonat

A guitarra na Galiza

A guitarra «española» e o seu efeito na Galiza (4)

Isabel Rei Samartim
jueves, 23 de septiembre de 2021
Corcubião, Concerto no jardim  © 1921 by Romero / Jano Lamas Corcubião, Concerto no jardim © 1921 by Romero / Jano Lamas
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Este último artigo da série é a transcrição íntegra do Capítulo 17, “Adianto do século XX”, do livro Guitarra galega. Breve história da viola (violão) na Galiza, publicado pela Através Editora, dentro da Coleção Alicerces dirigida por Teresa Moure.

Pieza enlazada

«De seguida apresentamos um breve adianto do que será o próximo estudo sobre a guitarra na Galiza durante o século XX. Este é o momento histórico que mais define e dá sentido à nossa realidade guitarrística atual, onde vemos as causas e as consequências das questões aqui observadas, com as suas vantagens e imperfeições. Entendermos o século XX é, para a guitarra galega, a melhor garantia de futuro.

«Estes cem anos bem poderiam dividir-se em três partes, com inevitáveis e necessárias referências políticas contrastadas em cada um deles: 1) Primeiro terço, com vaivéns políticos que culminam na República de 1931; 2) Segundo terço, com a guerra de 1936 e ditadura organizada por Franco e 3) Último terço, com a Transição à democracia e Constituição de 1978. Mas, para entendermos melhor a guitarra deste tempo há um elemento que experimenta um desenvolvimento linear, sem contrastes, progressivo e in crescendo, que começa no último terço do século XIX e cuja cimeira é atingida nas últimas décadas do século XX. Trata-se do tema já tratado inicialmente, a construção política da guitarra como instrumento espanhol ligado ao repertório castelhano-andaluz, excludente de todas as outras realidades guitarrísticas peninsulares.

Orquestra de plectro da A. S. Educación y Descanso. Betanços, 1944. Com X. Cuns e M. Álvarez. © by Arquivo Municipal de Betanços.Orquestra de plectro da A. S. Educación y Descanso. Betanços, 1944. Com X. Cuns e M. Álvarez. © by Arquivo Municipal de Betanços.

«Ao longo do século XX, a expressão guitarra española ganhará progressivamente peso político, presença mediática, presença editorial e espaço na sociedade galega e também na espanhola. Durante o primeiro terço do século, a ideia desenvolve o impulso iniciado no final do século anterior com pegadas documentais esporádicas, mas constantes. No segundo terço, a ditadura organizará o verdadeiro significado da “guitarra española” com a redução a folclore de todas as manifestações musicais, artísticas e culturais. E no último terço, com a abertura do Regime, acontece a verdadeira dimensão mediática do termo, a sua internacionalização ─ spanish guitar ─, a gravação e a difusão massiva de produtos musicais com essa marca. Isto provocou, já desde o final do século XIX, a presença de duas realidades paralelas na Galiza. 

«Por um lado, a alienação d@s guitarristas galeg@s perante a força política e mediática da guitarra española, até ao ponto de considerar, no último terço do século, que a guitarra galega ─ o conjunto de atores guitarrísticos, partituras e história galega da guitarra ─ não existia ou não era importante. E, por outro lado, a permanência, resistência, ou milagre musical, como se quiser chamar, da prática guitarrística e da composição de música galega para guitarra que @s guitarristas galeg@s mantiveram ao longo de todo o século XX.

«Sobre essa prática guitarrística, sobre @s intérpretes e compositor@s, a música escrita, os documentos conservados, as atividades realizadas e todas as pegadas históricas, fundamenta-se a história recente da guitarra na Galiza. Como aqui só apresentamos um resumo da magnificência da música para guitarra no século XX galego, estabeleceremos apenas algumas orientações que talvez possam interessar a futuras pesquisadoras animadas a ajudar na ingente tarefa.

Orquestra de plectro infantil, Sada, 1976. © by http://memoriadesada.com .Orquestra de plectro infantil, Sada, 1976. © by http://memoriadesada.com .

«Numa pesquisa inicial temos achado notícias de concertos e atuações variadas, a solo, em grupos de câmara ou em orquestras de guitarras e cordofones, que constituem atuações destacadas duns 120 guitarristas, homens e mulheres, por todo o território galego atual até às décadas de 1970-80. As localidades onde se realizaram estas atuações são as mesmas que as registadas em séculos anteriores, isto é, todas as cidades, vilas e lugares onde se acham documentos guitarrísticos históricos, mais as novas localidades que agora aparecem como recetoras ou organizadoras de música para guitarra: Návia, Ponte Caldelas, Porto Novo, São Gens, Porto do Som, Vila João, Cambados, Padrão, Ribeira, Cangas, Aldão, Marim, Cee, Melide, Baiona são algumas delas. A atividade documentada em Compostela, Corunha, Ferrol, Lugo, Ourense, Ponte Vedra e Vigo aumenta de modo exponencial durante o século XX. A vida musical destes guitarristas fornece fundos de partituras em arquivos particulares, como a parte moderna do fundo de Jesus Ínsua Yanes, o do ceense Xosé Chas García, o do naviego Amador Campos, o de Alfredo López Fernández de Vigo, o de Eugenio Santos Sequeiros de Cangas, o de Manuel Fernández Deza, de Porto Novo, o do cambadês Benito Silva ou o do cedeirês Ricardo Freire. Também os antigos armazéns de música conservam valiosas partituras para guitarra neste século, como o de Canuto Berea. E resultam imprescindíveis as informações que se acham nos fundos dos Coros galegos.

«Este período contém um conjunto de compositores galegos para guitarra superior aos períodos anteriores. Compuseram para guitarra, música de câmara ou conjunto de cordofones Felipe Paz Carbajal, Jesus Bal Gay, José Fernández Vide, Juan José Mantecón Molins e Santos Rodríguez Gómez, na primeira metade do século. Esta também foi a época do guitarrista espanhol Andrés Segovia, que deixou uma forte pegada na Galiza durante a segunda parte do século. À sua influência responderam compositores como Federico Mompou, Amando Blanquer e Antón García Abril, com obras de sabor galego. Também da sua influência foi a criação dos Cursos de Música em Compostela, que se realizaram no edifício do antigo Hospital de Peregrinos, hoje mais conhecido como Hostal dos Reis Católicos, em Compostela, e o concurso de guitarra de Ourense, que precedeu os estudos regulados de ensino da guitarra na cidade.

«Entre as personagens ilustres que tocavam guitarra, além do mencionado Daniel Castelão, na área literária temos também o pontevedrês Prudêncio Canitrot, de quem suspeitamos a afeição ao instrumento; um dos fundadores da Academia Galega, o médico lucense Jesus Rodríguez López; o escritor e professor ferrolano Ernesto Guerra da Cal, cuja família já tinha um passado guitarrístico; ou o ribadense José Alonso Trelles, cantor e guitarrista, emigrado no Uruguai onde hoje é considerado poeta nacional.

Três co-irmãs em Sada. © by Ángeles Couceiro Prego / http://memoriadesada.com .Três co-irmãs em Sada. © by Ángeles Couceiro Prego / http://memoriadesada.com .

«Entre as mulheres guitarristas há intérpretes, compositoras e professoras como a lucense Concepción Plantón Meilán, cujo irmão José Miguel era guitarrista e colaborador de Tino Prados. Também a viguesa Reina Blasco Domínguez, de que temos notícia no âmbito da franquista Sección Femenina. E a atividade guitarrística em vilas pequenas, de mulheres perfeitamente desconhecidas, como Esperanza Argibay, de Ribeira, de que apenas temos breves notícias. O silenciamento durante a ditadura, a folclorização do popular galego e a potenciação da guitarra como instrumento não galego são fatores que interagem durante o século XX para dar como resultado um novo enterramento das mulheres com capacidades artísticas e, neste caso, guitarrísticas. Aguardo que as pesquisas futuras compensem, como diria Marcia Citron, esta enorme falta e ajudem a colocar as guitarristas galegas no lugar que merecem na nossa história.

«Uma outra área que se tem desenvolvido nesta época, praticamente abandonada pelos poderes públicos no século anterior, foi a do ensino de música e, concretamente, da guitarra. Além das escolas de música, academias particulares e aulas privadas, no início do século XX foram se implementando outros modos de intervenção docente como os Centros de Colaboração Pedagógica da República. Depois já no franquismo vieram os primeiros conservatórios a incluírem, alguns deles, a especialidade de Guitarra. Mas foi necessário esperar até às últimas décadas do século para que o ensino público de Guitarra fosse completamente estabelecido em todas as cidades galegas.

«O forte impulso inicial dos agrupamentos de cordofones e guitarras nas últimas décadas do século XIX manifesta-se agora em forma de hegemonia social, a par e muitas vezes em colaboração com os Coros Galegos, que eram a máxima expressão musical galega e galeguista do primeiro terço do século XX. É nessa época que aparece na Corunha a ainda existente Agrupação Musical Albéniz (1928), a grande orquestra de guitarras galega desta época. A capacidade de organização social destes agrupamentos tinha sido apreciada tanto pelos sindicatos operários quanto pela Igreja, que organiza os seus próprios grupos como os dos Círculos Católicos, ou das Juventudes Antonianas e Jaimistas. Porém, toda esta riqueza musical será convertida em mero folclore com a chegada da ditadura e o controle das atividades culturais através das associações de Educación y Descanso, próprias do sistema franquista.

«No último terço do século estas orquestras, bem como as Tunas universitárias, deram passo ao tropel de movimentos musicais que caracterizaram o confuso final deste período, onde se juntam três marés de fundo nas diferentes manifestações musicais e guitarrísticas na Galiza. Na base está a maré política da ditadura, com o folclore galego bem controlado, que é necessário superar. De um lado, o novo horizonte além ditadura favorece a canção política, quase sempre acompanhada de guitarra. De outro lado, está o Capitalismo neoliberal a promover a indústria discográfica e, com ela, o desenvolvimento do pop e do rock, onde a guitarra elétrica é protagonista. E, numa terceira banda, ligado às anteriores, aparece o movimento folque de renovação da música popular. Estes são movimentos musicais assumidos na Galiza como meios de superação da ditadura e revitalização de uma cultura com poucos caminhos abertos e muitas vontades de reinvenção. A partir daí o génio galego tem traçado outras, genuínas e diversas, vias de comunicação musical através da guitarra».

Bibliografia

Rei-Samartim, I. (2021). Guitarra galega. Breve história da viola (violão) na Galiza. Santiago de Compostela: Através Editora.
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