Vox nostra resonat

A guitarra na Galiza

Um novo disco de guitarra galega

Isabel Rei Samartim
jueves, 28 de octubre de 2021
Guitarra Galega Vol. 1 © 2021 by Air Classical Guitarra Galega Vol. 1 © 2021 by Air Classical
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Sempre que se abrem novos caminhos, os primeiros avanços costumam ser dubitativos e inseguros, a finalidade não se vê e a utilidade para o conjunto tampouco fica clara. Esses primeiros passos, como os de uma criança que se ergue, costumam ser o resultado de iniciativas individuais, não coordenadas, que buscam saídas ao academicamente estabelecido e querem contribuir com música nova, desde a vontade de ampliar o repertório, na perceção certa de que algo lhes falta. Esses primeiros passos contêm ainda lastros do passado, que a criança vai soltando para poder ocupar o espaço que lhe corresponde, sem interferências nem ataduras.

Nas últimas décadas têm vindo à luz novas gravações sobre música galega, ou feita por autoras galegas, que abrem um leque de caminhos possíveis para o futuro da guitarra na Galiza. Em 1998 a guitarrista lucense Concepción Plantón, de conhecida família musical ligada ao labor docente de Tino Prados, publicava o disco intitulado Siete obras para guitarra: Concepción Plantón Meilán. Em 2008, Paco Barreiro fazia o próprio com Dangarandán, um disco de música galega arranjada para guitarra com adornos gaiteiros. A seguir, outros guitarristas mais novos começaram a publicar discos com música galega, ou de autores galegos, como a de Pepe Evangelista em 2010 sobre motivos da literatura galega, gravada pelo guitarrista corunhês Ramón Carnota no disco Confines. No mesmo ano Pablo Rodríguez apresentava o disco intitulado Pablo Rodríguez. Recital com a música para guitarra do seu pai, o guitarrista e regente da corunhesa orquestra de plectro Albéniz, Enrique Rodríguez Iglesias. Em 2012 saía o primeiro disco de recuperação de repertório histórico galego por parte do guitarrista tudense Samuel Diz, intitulado Guitarra Clásica Galega. Em 2018 Mateo Arnáiz apresentava a sua música em El sonido de las emociones. E em 2019 da mão de Sergio Franqueira publicava-se o CD soños da floresta, com a música do histórico Xosé Chas, prolífico guitarrista de S. Pedro de Nós e colaborador da Agrupación Guitarrística Galega.

Previsto para setembro mas finalmente em outubro de 2021, acaba de sair um novo disco intitulado Guitarra Galega Vol. 1, que chega com fundamentos históricos e intenção de futuro. O volume contém música para guitarra dos séculos XVIII a XXI, uma seleção das mais de 500 obras para guitarra existentes nos fundos guitarrísticos galegos, e tambén obras compostas por autoras vivas e em ativo, que veem, algumas pela primeira vez, uma parte do seu labor artístico gravada por uma intérprete que não são eles/elas mesmas. A foto protagonista da capa contém a imagem da mulher guitarrista esculpida no granito e situada na igreja de Santiago do Deão, na Póvoa do Caraminhal. Esta figura iconográfica foi estudada, junto com boa parte das obras do CD na tese A guitarra na Galiza (USC, 2020) e publicadas no livro Guitarra galega. Breve história da viola (violão) na Galiza (Através Editora, 2021).

O disco abre com quatro moinheiras do século XIX de quatro fundos históricos galegos. Continua com Soidade, a peça original para guitarra da escritora, poeta e música da Ulha, Avelina Valladares Núñez (1825-1902), e com uma Valsa, também original para guitarra, do irmão Marcial Valladares (1821-1903), intelectuais até agora mais conhecidos pela sua vertente literária e que aquí mostran o seu labor musical.  A seguir apresenta-se uma Sonata em três andamentos, até ao momento anónima, pertencente ao Caderno do Francês, que lembra a música de tecla do século XVIII. Também se incluem outra Valsa que agora sabemos é de Federico Moretti (1768-1839), uma Alvorada e vários Rigodões, todas pertencentes ao Fundo Valladares. 

A seguir pode ouvir-se a Op. 8 n.º 1 de João Parga Bahamonde (1843-1899), intitulada Minha lira, como exemplo do virtuosismo galego na segunda metade do século XIX. 

O disco inclui um arranjo para guitarra da conhecida obra de João Montes sobre o poema de Rosália Castro, Negra Sombra, realizado pelo guitarrista Antonio Rocha Álvarez.

Estas obras fecham a parte do disco dedicada ao século XIX e abrem a do século XX, com o belo Prelúdio n.º 5 do barbeiro e compositor ourensano Ramón Gutiérrez Parada (1874-1945), assinada em 1934 e dedicada ao guitarrista Alfredo López Fernández, que eu gosto de denominar a Lágrima de Tárrega galega. 

Também duas obras, Fado e Trémolo a Conchita, esta última a lembrar os trémolos de Tárrega ou mais bem do paraguaio-guarani Barrios “Mangoré”, da autoria do médico do médico de Cangas ainda que nascido na Póvoa, Eugenio Santos Sequeiros (1909-2012). A seguir vai uma amostra da qualidade compositiva do pintor e guitarrista lucense Tino Prados (1924-1981), com a obra Zoraida que, se continuarmos com as referências a Tárrega, poderia ser o Capricho Árabe galego. O disco continua com uma Fantasia sobre a melodia popular conhecida por Alalá das Marinhas do ourensano Manuel Herminio Iglesias (1949), a obra Pureza-Divertimento da lucense Concepción Plantón (1937) e encerra com a impressionista Chuva de abril do guitarrista viguês Paco Barreiro (1953), composta durante um chuvoso dia frente ao mar das Ilhas Cies.

A gravação realizou-se no compostelano estúdio da editora Air Classical, entre os dias 13-16 e 22 de maio de 2021. O editor e produtor foi o guitarrista José Manuel Dapena González. A disposição dos microfones segue o modelo usado por David Russell nas suas gravações. A intérprete e autora deste artigo tocou com uma guitarra do alemão Gernot Wagner construída em 2004 e cordas D’Addario. O disco vai associado a um libreto com informação sobre cada uma das obras, fotos e referências, que pode descarregar-se livremente em formato PDF na página da editora.

A intenção da intérprete é que este seja o primeiro CD duma série de Guitarra Galega com mais volumes e mais autoras/es que hão de vir nos próximos anos, a oferecer uma visão panorâmica da música para guitarra na Galiza. A divulgação das partituras destas obras está em andamento com vários cadernos e álbuns projetados para serem publicados na própria Air Classical e também na Editorial Viso. Haverá, pois, mais publicações a respeito da guitarra galega que esperamos sirvam para ampliar, conhecer e desfrutar mais da nossa cultura musical.

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