Vox nostra resonat

A guitarra na Galiza

O fundo guitarrístico de Javier Pintos Fonseca (4). As partituras

Isabel Rei Samartim
jueves, 23 de diciembre de 2021
Sonatas de Beethoven sobre o piano da casa de Samieira © Arquivo do Museu de Ponte Vedra Sonatas de Beethoven sobre o piano da casa de Samieira © Arquivo do Museu de Ponte Vedra
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 Antes de acabar a série sobre Pintos Fonseca queria comentar algo mais do repertório que aparece na sua coleção e que a converte numa das coleções de guitarra mais interessantes da Europa.

Julián Arcas (1832-1882)

Retrato de Julián Arcas numa das partituras da coleção Pintos Fonseca. Arquivo do Museu da Ponte Vedra. © 2021 by Isabel Rei Samartim.Retrato de Julián Arcas numa das partituras da coleção Pintos Fonseca. Arquivo do Museu da Ponte Vedra. © 2021 by Isabel Rei Samartim.

Dentro dos autores mediterrânicos (catalães, valencianos e murcianos) contidos no fundo de Pintos Fonseca destacam as sete obras de Julián Arcas, das quais cinco foram publicadas postumamente em Barcelona. Os títulos são Andante, Polonesa, Minueto Mim, Minueto SolM, El postillón de la Rioja de Oudrid, Barbero de Sevilla de Rossini e Marcha funebre de Thalberg. El postillón de la Rioja tinha sido publicado em 1861 e a Marcha fúnebre era tocada por Arcas já em 1867 (Suárez-Pajares e Rioja, 2003, p. 179). Na partitura do Barbero achamos uma interessante relação das obras de Arcas publicadas na editora barcelonesa Hijos de Andrés Vidal y Roger e um desenho com retrato de Arcas, guitarra e grinaldas. Além disso tem também um carimbo e uma assinatura de Javier Pintos.

O grande pianista Thalberg influiu no seu momento todos os músicos peninsulares e muitos guitarristas arranjaram as suas obras para as introduzir nos repertórios de concerto. Nesta ópera de Rossini, Arcas aplica a sua fina destreza para traduzir à linguagem guitarrística a música de outros instrumentos. Inclui trémolos, escalas e cadenzas que adornam a transcrição e mantêm o equilíbrio da obra original ao tempo que lhe imprimem as qualidades da guitarra.

Assinatura de Javier Pintos numa das suas partituras. Arquivo do Museu da Ponte Vedra. © 2021 by Isabel Rei Samartim.Assinatura de Javier Pintos numa das suas partituras. Arquivo do Museu da Ponte Vedra. © 2021 by Isabel Rei Samartim.

El postillón de la Rioja é também uma obra de dificuldade média-alta, sendo os minuetes, o andante e a polonesa obras mais simples e adaptadas ao nível do amador médio, sempre conservando o nível compositivo de Arcas. Sem dúvida, o excelente guitarrista almeriense influiu de modo fulcral no tipo de repertório e nos guitarristas em toda a península durante toda a segunda metade do século XIX.

Notar que Arcas tocava por volta da década de 1850 uma obra de sabor galego primeiro intitulada La gaita gallega variada, depois La gallegada e também La muñeira (p. 76). Não sabemos se esta última teria algo a ver com a moinheira publicada mais tarde por Campo Castro, presente no fundo de Pintos Fonseca. Além de Arcas, também Antonio Cano e Trinidad Huerta tocaram gallegadas em concerto (p. 74).

Josep Ferrer (1835-1916)

Noturno de Josep Ferrer. Coleção de Marina Pintos-Fonseca. Arquivo do Museu da Ponte Vedra. © 2021 by Isabel Rei Samartim.Noturno de Josep Ferrer. Coleção de Marina Pintos-Fonseca. Arquivo do Museu da Ponte Vedra. © 2021 by Isabel Rei Samartim.

Mas, dos mediterrânicos, os mais abundantes são os autores catalães com nove obras de José Ferrer Esteve: De noche en el lago, Dos Tangos, Elegia fantástica, Los encantos de París, Impresiones juveniles, Veladas íntimas, Charme de la nuit e mais dous noturnos achados manuscritos entre as obras de Javier Pintos Fonseca. A obra De noche en el lago é uma composição original dedicada por Ferrer ao "muy notable guitarrista Don Federico Cano", uma fantasia com variações de dificuldade média-alta, bem ordenada nas suas propostas técnicas, que emprega pizzicatos e harmónicos, além de adornos vários e abundantes matizes de carácter e tempo. Em geral, as obras de Ferrer analisadas neste fundo oferecem um nível técnico alto, que o bom guitarrista Javier Pintos podia assumir.

Outro noturno de J. Ferrer. Coleção de Marina Pintos-Fonseca. Arquivo do Museu da Ponte Vedra. ©  2021 by Isabel Rei Samartim.Outro noturno de J. Ferrer. Coleção de Marina Pintos-Fonseca. Arquivo do Museu da Ponte Vedra. © 2021 by Isabel Rei Samartim.

As obras de Ferrer conservadas no fundo Pintos Fonseca são originais e, na sua maioria, estão dedicadas a amigos e alunas, como as Veladas íntimas ao artista Joan Ferrer Carreras, as Impresiones juveniles ao amigo Magin Alegre, Los encantos de Paris ao professor do conservatório de Barcelona Francisco Sánchez Gabagnach, a Elegía fantástica ao guitarrista José Brocá, e Charme de la nuit à aluna Elisabeth Osborne.

Brocá, Costa, Sirera e Nogués

Dedicatória na primeira página às filhas de Pintos, em 16 de julho de 1912. Coleção de Marina Pintos-Fonseca. Arquivo do Museu da Ponte Vedra. ©  2021 by Isabel Rei Samartim.Dedicatória na primeira página às filhas de Pintos, em 16 de julho de 1912. Coleção de Marina Pintos-Fonseca. Arquivo do Museu da Ponte Vedra. © 2021 by Isabel Rei Samartim.

De Josep Brocá Codina (1805-1882) conservou Pintos Fonseca duas obras: Recuerdos juveniles e Albores. De Josep Costa Hugas (1827-1881) há dous arranjos: Sinfonia de la ópera el Barbero de Sevilla de Rossini, e Grande andante della 4ª sinfonia de Mendelssohn. De Josep Sirera Prats (1884-1931) está a Gran marcha de la salida de Ernesto en la ópera del Pirata de Bellini, que se anunciava à venda no Diario de Avisos de Madrid (1830). E de Joan Nogués Pon (1875-1930), um arranjo da Sonata n.º 3 de Beethoven. Todas estas obras apresentam um nível técnico médio-alto e uma boa qualidade musical, características procuradas pelo nosso guitarrista Javier Pintos Fonseca. Para mais sobre os autores catalães ver Mangado (1998).

Antonio Crespí

Javier Pintos, teósofo. Coleção de Marina Pintos-Fonseca. Arquivo do Museu da Ponte Vedra. © 2021 by Isabel Rei Samartim.Javier Pintos, teósofo. Coleção de Marina Pintos-Fonseca. Arquivo do Museu da Ponte Vedra. © 2021 by Isabel Rei Samartim.

A adoração por Beethoven tem a ver com a militância teosófica de Pintos no grupo “Marco Aurélio” da Ponte Vedra. O inspirador do movimento teosófico espanhol, o cacerenho Mario Roso de Luna (1872-1931), publicou o seu Beethoven, teósofo na Ponte Vedra, graças a Javier Pintos. Assim, uma outra obra de Beethoven conservada neste fundo é o Andante da Sonata op. 14, n.º 2, cópia e arranjo para guitarra realizado por Antonio Crespí em setembro de 1915 e dedicada a Pintos. Na última página aparece assinatura e a dedicatória:

Perpetrado expresamente para el fervoroso y distinguido beethoveniano, Sr. D. Javier Pintos, en acción de gracias de su amigo y servidor Antonio Crespí.

Primeira página do arranjo de Crespí para guitarra. Coleção de Marina Pintos-Fonseca. Arquivo do Museu da Ponte Vedra. © 2021 by Isabel Rei Samartim.Primeira página do arranjo de Crespí para guitarra. Coleção de Marina Pintos-Fonseca. Arquivo do Museu da Ponte Vedra. © 2021 by Isabel Rei Samartim.

O arranjador era Antonio Crespí Mas, de origem malhorquino, durante muitos anos professor catedrático de Ciências da Agricultura no Liceu da Ponte Vedra, daí a conexão com Pintos. Antonio Crespí foi pai de María Alicia Crespí González, nascida na Ponte Vedra, a primeira mulher catedrática numa Escola Superior na Espanha. Esta obra vem a complementar os autores mediterrânicos antes citados, neste caso com música realizada na Galiza.

Música de câmara

Publicada na Itália por Ricordi era a obra de Mauro Giuliani Le avventure di amore para duas guitarras, composta por dez valsas e um final, todas com um título descritivo: 1. L'Invito al ballo, 2. L'Affetto, 3. La Dichiarazione, 4. Il Rifiuto, 5. Il Dispiacere, 6. La Disperazione, 7. La Partenza, 8. Il Pentimento, 9. Il Ritorno, 10. [sem título] e final. São estas peças singelas, de boa feitura guitarrística, feitas para o desfrute de guitarristas amadores.

Outras obras editadas por Ricordi, conservadas neste fundo, são a da compositora inglesa Augusta E. Herbey, L'Absence, também para duas guitarras, interessante autora de que pouco sabemos, sintoma de que precisamos urgentemente duma história compensatória das mulheres guitarristas (Citron, 1993). Um arranjo de Francesco Castelli: Il bacio de Luigi Arditi para voz e duas guitarras. Outro arranjo de A. Padiglione: Valzer infernale. Nell'opera Roberto Il Diavolo de Meyerbeer. E, para bandolim ou grupo de bandolins: La voluttà. Mazurka de Mattiozzi, arranjada por Graziani-Walter. Todas obras de dificuldade baixa-média, apropriadas para serem comodamente interpretadas por vários intérpretes amadores e estudantes de guitarra. É possível que estas e outras partituras deste fundo, as de menor exigência técnica, tenham sido empregadas por Pintos para o ensino musical da guitarra na Ponte Vedra.

Um dos carimbos de Pintos nas suas partituras. Arquivo do Museu da Ponte Vedra. © 2021 by Isabel Rei Samartim.Um dos carimbos de Pintos nas suas partituras. Arquivo do Museu da Ponte Vedra. © 2021 by Isabel Rei Samartim.

Do arranjo anónimo de I Lombardi de Verdi, editado também por Ricordi, dizer que na capa há uma relação das obras arranjadas para guitarra e publicadas pela editora dos autores operísticos mais importantes: Meyerbeer, Verdi, Bellini, Donizetti, Pacini. Contém três arranjos singelos da Cavatina "Come poteva" na ópera I Lombardi de Verdi e de duas árias: "La pietade in suo favore" e "Ah! muore" em Lucia di Lammermoor de Donizetti. É música de alta qualidade para amadores, e de uso corrente, pelo que nem se considera publicar a autoria do arranjo.

Há neste fundo também uma série de obras para guitarra e instrumento melódico, normalmente o violino, muito simples, que contrastam com as outras obras mais virtuosísticas. É música de autores pouco conhecidos e publicados em Pamplona ou comprados na Casa Dotésio de Bilbau. Trata-se dos autores A. Goya, J. Santos, G. Casajús, Teodoro Amatriain López e o guitarrista R. V. que arranja alguma música dos primeiros e que constituem o grupo basco-navarro de autores do fundo.

Minueto de Beethoven transcrito por Segovia, manuscrito de Pintos. Coleção de Marina Pintos-Fonseca. Arquivo do Museu da Ponte Vedra. © 2021 by Isabel Rei Samartim.Minueto de Beethoven transcrito por Segovia, manuscrito de Pintos. Coleção de Marina Pintos-Fonseca. Arquivo do Museu da Ponte Vedra. © 2021 by Isabel Rei Samartim.

De R. V. conservam-se 5 arranjos para guitarra e violino e guitarra de duas obras de G. Casajús (El ambiente e Coquetuela), duas de A. Goya (Un suspiro e Su mirada) e uma de J. Santos (El santoñés), editadas por L. E. Dotésio e F. Ripalda. F. Ripalda era um editor navarro da segunda metade do s. XIX, o seu fundo foi absorvido por Dotésio em junho de 1902 (Eresbil). É um repertório para tocar com outros amadores de modo fácil e rápido, que poderia servir para ampliar os recitais com obras menos pesadas, ou para passar o tempo em reuniões de sociedade, as quais sabemos que Pintos Fonseca realizava com frequência.

Aprofundando na música argentina

Como já foi dito, Pintos Fonseca tinha uma boa representação de autores, editores e música argentina, como era de esperar dadas as suas amizades musicais naquele país americano. Assim, no fundo conservam-se oito obras de Juan Alais Moncada: El gato, Zamacueca, La güeya, 2º Pericon, Cielo e La milonga, La criollita de Frígola e 6 estilos criollos sobre música popular argentina. Mais três obras de Carlos García Tolsa: Matilde, Una esperanza e Lejos de ti. Mais duas obras de Gaspar Sagreras: Manonga e Una lágrima, que fazem um belo conjunto de música argentina do fim do século XIX e começo do XX. Na obra de Alais, La milonga, vemos o seguinte autógrafo de José Portela Palacios, assinado em Magdalena (República Argentina) em dezembro de 1895: "A mi mejor amigo Javier Pintos Fonseca como prueba del más leal respeto le dedica este pequeño recuerdo criollo".

Estas obras foram publicadas pelas editoras de E. Halitzky, C. Schnöckel e F. Stefani. O conjunto de peças é de feitura singela, mas de grande fineza compositiva, conseguindo com poucas filigranas ajudar ao desenvolvimento da nova música popular argentina para guitarra. Os guitarristas foram tratados por Melanie Plesch (1999a, 1999b e 1999c) tendo todos relação entre si no Buenos Aires de final do século XIX. Como já explicamos, estes autores tinham relação também com o galego Francisco Núñez, dono de um dos maiores estabelecimentos de violaria, edição e venda da cidade bonaerense na época.

José Fola e Eduardo del Vando

O deputado pelo Partido Galeguista em 1936, Ramon Suárez Picallo, escrevia já no exílio umas emocionantes crónicas desde Chile a modo de memórias da sua vida política na Galiza. No capítulo intitulado Miting a jornada acabava com uma representação dramática de uma obra de José Fola Itúrbide (Suárez Picallo, 2008, p. 338).

Seria este dramaturgo um parente do matemático valenciano Apolinar Fola Itúrbide, membro da Real Academia de Ciencias Exactas, Físicas y Naturales desde 1883? (Real Academia de Ciencias Exactas, p. 134) E, ambos Folas, seriam familiares do guitarrista Fola Itúrbide que se menciona na imprensa galega? (El Lucense, 1893). Ou o dramaturgo José Fola Itúrbide seria a mesma pessoa que o guitarrista José Fola, nomeado por Landín (1999, p. 313) junto a João Parga, quando diz que ambos os dous tocaram, por separado, no Casino da Ponte Vedra?

O motivo da estadia de José Fola na Ponte Vedra explica-o Javier Pintos quando anota no seu diário, em 1 de setembro de 1890:

El notable guitarrista D. José Fola vino a Pontevedra a pasar una temporada con su suegro D. Montiel, Jefe de Fomento de esta provincia. [...] Con él toqué la guitarra en su casa y en la del Yngeniero Jefe de Obras publicas D. Alejandro [C.?].

Estes indícios são suficientes para suspeitar uma relação familiar, ou de identidade, entre o dramaturgo castelhonense José Fola Igúrbide (18?? -1918), assim chamado pela Universitat Jaume I, em cujo repositório pode consultar-se a sua obra digitalizada, e o guitarrista José Fola.

A Mazurka de los Paraguas é o arranjo de Tárrega da mazurca contida na revista de Chueca e Valverde, intitulada El año pasado por agua, estreada em Madrid em 1889. No fim das cinco páginas figura anotado: "Copiado por Eduardo del Vando. 30-6-1909". Eduardo del Vando era um guitarrista andaluz que tocou a duo com José Fola, por influência dele chegou à Galiza, estabeleceu-se brevemente em Vigo, e conheceu Pintos Fonseca.

Fica por aqui a relação de amizades, ligações, obras e vida musical de Javier Pintos Fonseca, um dos nossos guitarristas e intelectuais mais completos e prolíficos, cuja influência na Ponte Vedra foi fulcral e o grande motor da vida musical da cidade.

Bibliografia

Citron, M. (1993). Gender and the Musical Canon. Cambridge: Cambridge University Press.
Diario de avisos de Madrid (1830). Música. Madrid: 16 de julho, p. 4.
El Lucense (1893a). Política europea. Lugo: 3 de janeiro, p. 2.
Eresbil. F. Ripalda, editor. Editoriales musicales de Euskal Herria (s. XV-1950).
Landín Tobío, P. (1999). De mi viejo carnet. Ponte Vedra: Deputación Provincial de Pontevedra.
Mangado Artigas, J. M. (1998). La guitarra en Cataluña. Londres:Tecla Editions.
Plesch, M. (1999a). Alais, Juan. Casares, E. (Dir.) Diccionario de la música española e hispanoamericana, 1, (154). Madrid: Sociedad General de Autores y Editores.
Plesch, M. (1999b). García Tolsa, Carlos. Casares, E. (Dir.) Diccionario de la música española e hispanoamericana, 5, (495-496). Madrid: Sociedad General de Autores y Editores.
Plesch, M. (1999c). Sagreras, 1. Gaspar; 2. Julio Salvador. Casares, E. (Dir.) Diccionario de la música española e hispanoamericana, 9, (538-539). Madrid: Sociedad General de Autores y Editores.
Real Academia de Ciencias Exactas, Físicas y Naturales (s. d.). Relación de académicos desde el año 1847 hasta el 2003.
Rei-Samartim, I. (2020). A guitarra na Galiza. Tese de doutoramento. Universidade de Santiago de Compostela.
Suárez-Pajares, J. e Rioja Vázquez, E. (2003). El guitarrista almeriense Julián Arcas (1832-1882). Una biografía documental. Almeria: Instituto de Estudios Almerienses.
Suárez Picallo, R. (2008). La feria del mundo: crónicas desde Chile (1942-1956). Santiago de Compostela: Consello da Cultura Galega.
Universitat Jaume I. Fola Igúrbide, José. Repositório.

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