Vox nostra resonat

A guitarra na Galiza

Caderno do Francês: amor em tempos de guerra para guitarra (2)

Isabel Rei Samartim
jueves, 2 de junio de 2022
Capa do Caderno do Francês. © 2022 by Museu da Ponte Vedra / Isabel Rei Samartim Capa do Caderno do Francês. © 2022 by Museu da Ponte Vedra / Isabel Rei Samartim
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A Sonata em três andamentos

Quanto às obras sem autor conhecido devemos salientar a Sonata escrita para guitarra de seis cordas, sem indicação de autor, que é a obra de mais peso de todo caderno. Esta sonata estende-se por várias páginas e desenvolve-se na escritura chamada 'violinística' típica da época, que caracteriza a composição para guitarra. Divide-se em três andamentos, o primeiro em Lá M e 2/4, Allegro comodo, o segundo em Lá m e 3/4, Adagio, e o terceiro e último em Lá M e 2/4, Allegro. Esta obra foi gravada no disco Guitarra galega Vol. 1 (Rei-Samartim, 2021).

No Caderno do Francês há obras que são superiores em melodia que em harmonia. Expressam isto através de simples notas de baixo em cordas ao ar, para poder desenvolver melhor as vozes superiores. É o caso desta Sonata que, não sendo tecnicamente simples, desenvolve muito mais o âmbito da interpretação nas primeiras cordas empregando as notas graves somente para dar uma cor harmónica. O seu estilo lembra as sonatas para cravo de Domenico Scarlatti (1685-1757), compositor napolitano que residiu em Lisboa, Sevilha e Madrid. Também as de outro Domenico, presente no caderno: Domenico Cimarosa (1749-1801). E o estilo dos contemporâneos de Scarlatti, o português Carlos Seixas (1704-1742) e o padre Antonio Soler (1729-1783), aluno de Scarlatti em Madrid, de quem se conserva uma obra no fundo Valladares para dous violinos e, possivelmente, alguns instrumentos do contínuo.

Íncipit da Sonata na página 15 do Caderno do Francês. Fonte: Museu da Ponte Vedra. © 2022 by Isabel Rei Samartim.Íncipit da Sonata na página 15 do Caderno do Francês. Fonte: Museu da Ponte Vedra. © 2022 by Isabel Rei Samartim.

A Sonata parece claramente inspirada na música para tecla. A novidade é que não está escrita num único andamento dividido em duas partes, mas se desenvolve ao longo de três andamentos, no estilo da sonata clássica. Pela página do Répertoire International des Sources Musicales (RISM) vemos que várias sonatas de Soler para cravo foram impressas em Londres por Robert Birchall (1750-1819) em torno a 1796. É possível que fosse através da conexão londinense que se popularizaram estas peças na Galiza depois da morte do autor. Do mesmo modo, como vemos no arquivo de música da família Adalid e no dos Canuto Berea, o repertório pianístico surtia-se, entre outras, de partituras impressas em Londres. No final do séc. XVIII e começo do XIX, misturados com os novos autores europeus, também chegariam Scarlatti, Soler e Cimarosa.

As canções patrióticas

As seis canções patrióticas desenvolvem todas o tema da defesa da monarquia espanhola, representada por Fernando VII, contra a monarquia francesa representada por José Bonaparte, e em favor das vitórias do inglês Duque de Wellington na Guerra do Francês. 

Íncipit da canção patriótica «El amor y la amistad», na p. 54 do Caderno. Fonte: Museu da Ponte Vedra. © 2022 by Isabel Rei Samartim.Íncipit da canção patriótica «El amor y la amistad», na p. 54 do Caderno. Fonte: Museu da Ponte Vedra. © 2022 by Isabel Rei Samartim.

Da canção anónima El amor y la amistad é muito interessante o facto de estar escrita para guitarra de cinco ordens. Como a letra faz referência clara a José Bonaparte como rei da Espanha é preciso concluir que se trata de uma letra composta entre 1808 e 1813. Isto indica que ainda nessa época persistia o repertório para guitarra de cinco ordens. Estas guitarras estão afinadas como a atual, com uma corda a menos. A partitura não contém qualquer nota mais grave do que o Lá da quinta corda. Nota-se a falta da sexta corda especialmente ao realizar acompanhamentos sobre o acorde de Sol, pois fica no baixo a 5ª do acorde (o Ré da quarta corda). 

No Caderno do Francês há mais três canções com acompanhamento de guitarra de cinco ordens, a Cabatina de Blinval, o Cantar del Pajaro e a patriótica La entrada de Badajoz. A Cancion en honor de Fernando 7.º está escrita num papel mais pequeno que as dimensões do caderno, por uma mão diferente e para guitarra de seis cordas.

Íncipit da canção «Los defensores de la patria», de Sors/Arriaza no Caderno. Fonte: Museu da Ponte Vedra. © 2022 by Isabel Rei Samartim.Íncipit da canção «Los defensores de la patria», de Sors/Arriaza no Caderno. Fonte: Museu da Ponte Vedra. © 2022 by Isabel Rei Samartim.

A canção Recuerdos del dos de Mayo é atribuída pela BNE a um tal Benito Pérez com letra do poeta madrileno Juan Bautista de Arriaza (1770-1837). Por Jeffery (2017, pp. 157-166) sabemos que Arriaza viajou de Madrid a Sevilha fugindo dos franceses, talvez por isso a canção Los defensores de la Patria, com letra também de Arriaza, foi publicada em Sevilha com música de Fernando Sors, na Gazeta del Gobierno em 1809 para voz e piano. Esta canção conservada no Caderno do Francês é um arranjo para voz e guitarra que reproduz a melodia principal, sendo o acompanhamento uma adaptação da mão esquerda do piano. Jeffery faz um repasso pelas publicações desta obra e nomeia as de Sevilha (1809), Londres (1810), Viena (1814) e outras ao longo dos séculos XIX e XX. A canção foi tão conhecida que se tornou um dos hinos representativos da Guerra do Francês. A letra está também recolhida em Cortès e Esteve (2012, pp. 90-91).

Tablatura numérica no Caderno do Francês

O Caderno do Francês contém também um exemplo de tablatura numérica. É uma peça sem título na página 51 do caderno, que parece ser uma valsa e está escrita para guitarra de seis cordas. O critério para considerá-la uma valsa é puramente musical, igual que o resto das peças sem título que respondem a um tipo reconhecível de dança, como acontece com a valsa da p. 46 e o minueto das pp. 46 e 47. É típico desta época achar as valsas escritas em 3/8 e os minuetos em 3/4. As canções sem título são intituladas pelo primeiro verso: Cortad laurel ninfas, Una voz sonora e Se m'abbandoni. Também ficam sem título as duas peças de J.(F?) Miguel M. B. que, por serem composições instrumentais e de autor, preferimos só numerá-las.

As marchas militares e outras canções

As marchas, algumas delas militares, acrescentam o número de peças ligadas ao mundo do exército, bem como a melodia sem acompanhamento Batalla de Badajoz. A bolera, a Tirana sevillana e a Cabatina de Blinval fazem parte da publicação conservada na BNE (cota: M/2463(5)) intitulada Tres canciones y una cabatina de la ópera del Preso con dos tiranas y una bolera, datada de 1801. 

Íncipit da Cavatina de Blinval, de Dominique della Maria, aluno de Paisiello. Fonte: Museu da Ponte Vedra. © 2022 by Isabel Rei Samartim.Íncipit da Cavatina de Blinval, de Dominique della Maria, aluno de Paisiello. Fonte: Museu da Ponte Vedra. © 2022 by Isabel Rei Samartim.

As três obras do Caderno do Francês, mais as outras que se publicaram no caderno da BNE, fazem parte da adaptação castelhano-andaluza da ópera cómica francesa Le Prisonnier ou la Ressemblance (1798) composta por um jovem Dominique della Maria (1769-1800), aluno de Paisiello. Esta ópera foi possivelmente estreada em 1798 em Paris, em 1799 em Londres, e em Madrid a estreia deveu acontecer pelos 1800 ou 1801, que é o ano em que a BNE data o seu caderno. A ópera inicial não contém boleras nem tiranas, pelo que parece óbvio que a adaptação não foi uma mera tradução linguística, mas uma transformação da obra com elementos musicais castelhano-andaluzes atribuídos ao compositor andaluz Manuel García.

O possível proprietário: José Fontecoba

O Caderno do Francês está acompanhado de umas folhas soltas, catalogadas na mesma cota, onde figura também um manuscrito barroco, que será objeto doutro artigo, e uma série de fólios e páginas manuscritas com música de começos do séc. XIX. Estas folhas soltas fazem um total de 22 fólios dos quais 3 pertencem ao manuscrito barroco para guitarra e os outros 19 estão dedicados à aprendizagem dos rudimentos musicais e à música para violino. Num dos fólios aparece o nome da pessoa para a que foram copiadas algumas das peças, o presbítero José Fontecoba:

Contradanzas / Para Violin 1º y 2º / Copiadas para uso del Pbro. D. Jose / Fontecoba / Pontevedra, 28 de Julio de / 1831.

No meio, em tinta mais escura, aparece repetidas vezes um outro nome: "Antonio Garcia". Noutro fólio volta a aparecer o nome de Fontecoba, desta volta numa pequena anotação na margem direita do fólio que parece estar em verso, a qual transcrevemos segundo a disposição exata das palavras no texto:

Para Fontecoba
Para Fontecoba & del contenido
sino aprende la musica
[palavra riscada ilegível] merece
pero yo misericordiosa
¿como podre permitir
semejante cosa?

Seria a Música ou a Virgem a que, apiedada do Padre Fontecoba, não poderia permitir o castigo que a palavra riscada mencionava, que aventuramos seja “espada”? O senso humorístico dentro do ambiente bélico da época é mais do que evidente, a mostrar uma possível relação de amizade entre dous músicos. Há mais uma indicação de data noutro dos fólios soltos com a inscrição Contradanza del año de 1841. Poderia ser que todos os papeis de música conservados no Museu da Ponte Vedra na cota Sampedro 46-18 estivessem juntos já em 1841 e ligados a José Fontecoba.

Quase nada sabemos de José Fontecoba, presbítero, violinista e quem sabe se também guitarrista na primeira metade do século XIX na Ponte Vedra. O autor do Caderno do Francês oferece um perfil de amador ilustrado, com amplo conhecimento musical e colecionador de partituras. O uso dos termos antigos para as notas, o uso da tablatura, a música para guitarra de cinco e de seis ordens e a música ligada aos acontecimentos bélicos fazem deste caderno o possível legado de um outro guitarrista-violinista de entre séculos.

As letras das canções

Já mencionamos que os temas das letras do Caderno do Francês têm como focos principais a Francesada e o amor. No relativo às batalhas, a orientação é sempre anti-francesa. No relativo às canções de amor, como é próprio da época, há diversas letras que oferecem situações que nunca passariam uma análise de género feita no século XXI. Mas, apesar de termos consciência da mudança de paradigma logrado pelo Feminismo nas últimas décadas, ainda continuam a chamar a atenção algumas letras, como a desta canção, El Epitafio de la Colegiala, publicada e vendida em Madrid em 1810:

Víctima del ciego amor
de un Padre avaro obcecado
yace polvo enamorado
Paula muerta por amor
el duro interés que horror
nadie ha podido vencer
mas si esta triste muger
fuera en pobreza nacida
no la quitara la vida
el mismo que la dio el ser.

Íncipit da estremecedora canção El epitafio de la colegiala. Fonte: Museu da Ponte Vedra. © 2022 by Isabel Rei Samartim.Íncipit da estremecedora canção El epitafio de la colegiala. Fonte: Museu da Ponte Vedra. © 2022 by Isabel Rei Samartim.

Esta canção conservada na página 58 do Caderno possui a letra mais estarrecedora de todos os fundos guitarrísticos galegos. Oferece um elemento indiscutível de análise sociológica e de género sobre o crime de pai sobre filha, o conceito do amor que serve como desculpa da ação criminal, a situação das mulheres no século XIX, agravada por a mulher pertencer a uma família rica, e a canção como denúncia social, diretamente ligada à literatura, à música de cordel e à guitarra.

Uma relação completa das obras e das letras do Caderno do Francês, junto com uma descrição mais extensa, acham-se na tese de doutoramento A guitarra na Galiza (Rei-Samartim, 2020).

Referências bibliográficas

Cortès, F. e Esteve, J-J. (2012). Músicas en tiempos de guerra. Cancionero (1503-1939). Bellaterra: Edicions UAB.

Diario de Madrid (1810). Música. 10 de dezembro, p. 3.

Jeffery, B. (2017). España de la guerra. The spanish political and military songs of the war in Spain 1808 to 1814. London: Tecla Editions.

Rei-Samartim, I. (2020). A guitarra na Galiza. Tese de doutoramento. Universidade de Santiago de Compostela. 

Rei-Samartim, I. (2021). Guitarra galega Vol. 1. CD. Air Classical.

RISM - Repertoire Internationale des Sources Musicales (1996). Normas internacionales para la catalogación de fuentes musicales históricas. Madrid: Arco Libros.

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