Vox nostra resonat

Manrique de Lara

Os Cantos populares de Manuel Manrique de Lara (1)

José Luís do Pico Orjais
jueves, 21 de julio de 2022
Manuel Manrique de Lara y Berry © Dominio público Manuel Manrique de Lara y Berry © Dominio público
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No Fondo Local de Música do Concello de Rianxo conservamos uma pequena coletânea de revistas musicais -e com música- datadas nas primeiras décadas do século XX,* colecionadas, na altura, pela família Pérez.* Além de alguns números inteiros, há um conjunto de recortes cuja origem nem sempre é fácil de adivinhar e sem outra relação do que sendo ilustrações de partitura dos mais diversos géneros e autores. 

"Romances Castellanos en los Balkanes", revista «Blanco y Negro» (2 de janeiro de 1916). © 2022 by José Luís do Pico Orjais."Romances Castellanos en los Balkanes", revista «Blanco y Negro» (2 de janeiro de 1916). © 2022 by José Luís do Pico Orjais.

Mexendo entre os recortes, encontrei-me com uma página que me chamou especialmente a atenção pelo contido e pelo magnificamente ilustrada que estava. Titulava-se Romances Castellanos en los Balkanes, cantos recolhidos e transcritos por Manuel Manrique de Lara.* Não demorei muito em encontrar na rede a referência a esta publicação, conhecendo que fazia parte dum exemplar do Blanco y Negro publicado em 2 de janeiro de 1916. Depois de tantos anos dedicados à historiografia do folclore musical peninsular, senti-me um bocadinho ferido no orgulho por desconhecer em absoluto quem era esse músico de apelido florido, que por volta do 1916 andava a fazer trabalho de campo pelos Balcãs. Felizmente, na atualidade contamos com a magnífica monografia da professora Diana Díaz González,  que revela todos os segredos escondidos na vida e obra deste compositor e crítico musical a dia de hoje todavia tão desconhecido.

Este pequeno opúsculo meu apenas pretende colocar o foco nos vínculos que o autor nascido em Cartagena tem com a Galiza; anotações dum curioso que encontrou na biografia de Manuel Manrique de Lara y Berry uma personagem de grande atrativo pela sua faceta de folclorista, viajante, navegante, diplomata… Sinto uma mistura de admiração e inveja por momentos nada sana por um homem que contemplou as ruínas do templo de Baalbek, que escutou falar ladino em Salónica, que passeou a Strauss por Madrid e que ocupou uma cadeira na plateia de Bayreuth.

I. Origens

Álbum de família

Manrique de Lara perteneció a una familia de raigambre militar, asentada en Cartagena en la segunda mitad del siglo XIX. [Díaz González, p 23]

Sendo esta afirmação absolutamente certa, penso que a árvore genealógica do maestro dá para algumas considerações adicionais que talvez ajudem a conhecê-lo melhor. As minhas indagações me levaram a um labirinto de nomes e sobrenomes difíceis de ordenar; rede familiar que exemplifica perfeitamente como foi construída uma burguesia que ao longo do século XIX substituiu, ou se fundiu, com os restos duma aristocracia já em decadência.

Manuel Manrique de Lara y Berry, (Cartagena, Múrcia, 1863 - St. Blasien, Friburgo, estado de Baden-Wurtemberg, Alemania, 1929) era filho de Manuel María José Rafael de Lara Pazos nascido o 23 de outubro de 1832 em São Julião de Coiro, Laracha, A Corunha e Francisca Berri Bragante, de Cartagena, Múrcia, em 1840. O vínculo matrimonial foi feito de palavra às sete da noite do 29 de setembro de 1862, na igreja cartaginense de Santa María de la Gracia.* A razão de casar por procuração está motivada por encontrar-se o capitão de Lara Pazos destinado na Ilha de Cuba. Como remate no registo paroquial do casamento, o padre que oficiou a cerimónia aclara que a noiva foi 

advertida no se junte ni habite con el Dn Manuel de Lara, hasta haber ratificado su matrimonio.  [Díaz González, p 23]

Dado que o meu principal interesse neste artigo é a ligação galega de Manrique de Lara, já evidenciada pelo lugar de nascimento do seu pai, prefiro deixar o seu estudo para mais tarde e concentrar-me de primeiras na linhagem materna.

Múrcia e Génova

Dona Francisca Berri Bregante (mãe) era filha de Juan Berri Gandulfo (1803-1862) e Valentina Bregante Orbay (1811-?).* Os Berri são uma extensa saga de funcionários públicos originários, até onde conhecemos, de Cieza. Juan Berri Gandulfo (avô) era escrivão honorário de Câmara do Supremo Conselho de Fazenda. Juan Benito Berri del Barco (bisavô), escrivão de número do Cabido Municipal e Maior de Rendas Reais da Província. Este último, além de mais, abriu um reñidero de gallos na cartageneira rua Ancha de la Serreta. Orbay, o segundo sobrenome da mãe procede de Ibiza e, apesar de contar com muitos poucos dados a respeito da sua atividade em Cartagena, suspeito que a família tinha  interesses no comércio marítimo.

Mas são os apelidos Gandulfo e Bregante que chamaram especialmente a minha atenção, por serem ambos de origem genovesa. Os trisavôs e trisavós de Manrique de Lara Francisco ou Franco Bregante e Mª Bornia; Antonio Gandulfo e Maria Cathalina Garibato nasceram nesta vila italiana. É sabido que as famílias genovesas afincadas em Múrcia iniciaram as suas atividades no século XIII. 

Las funciones que realizaron aquí estos mercaderes fueron las que anteriormente ejercieron los judíos: prestamistas, banqueros, administradores, arrendadores o recaudadores de impuestos y rentas reales, señoriales, eclesiásticos y municipales, etc. [Miralles Martínez, p 493]

Mais adiante Miralles Martínez afirma: 

Los genoveses desarrollaron una endogamia en tres ámbitos: profesional, nacional y social. Las estrategias matrimoniales de los genoveses afincados en Murcia tendían a una endogamia elevada dentro de sus paisanos, como sucedió en Cartagena, o incluso, dentro de la misma familia —la consanguinidad era un procedimiento para la cohesión del grupo familiar—; pero abriéndose por medio de enlaces matrimoniales a las familias burguesas locales e hidalgas foráneas, en principio, y nobles autóctonas, después, como del mismo modo ocurrió en Toledo o en Valencia. 

As ligações familiares dos Manrique de Lara y Berry são um claro exemplo de matrimónios arranjados que quase chegam a proporções de cruzamento industrial. O casamento dos seus pais une, de fato, a duas famílias de origem genovês dedicadas ao comércio marítimo. Para fortalecimento ainda maior dos negócios da família, o irmão do pai, Francisco Berri Gandulfo, casou-se com uma irmã da mãe, Juana Bregante Orbay.

Como se pode ver na linha materna da árvore genealógica de Manrique de Lara, encontramos até seis apelidos diferentes de origem genovesa: Gandulfo (Gandulpho, Gandolfo?), Bregante, Garibato, Bornia, Dodera e Vigo (Bigo).

Nesta linhagem italiana destaca o nome do tetravô Juan Bautista Bornia (Roma, ? - Cartagena, 1796), pintor e escultor romano que trabalhou na cidade departamental junto ao seu genro Ignacio Baldaura. Este seria o único ascendente, que nós saibamos, dedicado a alguma rama das belas artes.

Árvore genealógica de Manuel Manrique de Lara, linha materna. © 2022 by José Luís do Pico Orjais.Árvore genealógica de Manuel Manrique de Lara, linha materna. © 2022 by José Luís do Pico Orjais.

Em definitiva, estamos ante uma rede familiar tecida lentamente em função de interesses comerciais, nos que, como se pode apreciar no gráfico que representa a árvore genealógica, não se deu ponto sem nó. Famílias genovesas dedicadas principalmente ao comércio marítimo uniram os seus sobrenomes, além de entre eles, com ativos locais nos que destacavam famílias de funcionários públicos como os Berri ou de armadores, como os Orbay. Efetivamente, entre os avôs maternos de Manrique de Lara houve capitães de barco, como Juan Bautista Bregante Bornia, mas não dum navio em linha de guerra, senão duma embarcação mercante comercial.

Os fios continuaram a se estenderem nas gerações posteriores às do compositor por nós estudado. Uma irmã de Manrique de Lara, chamada María del Carmen, casou com Bartolomé Spottorno Bienet. Resulta desnecessário dizer que o primeiro Spottorno que chegou a Cartagena, também de nome Bartolomé, era um italiano natural de Génova. Neto de María del Carmen, e portanto, sobrinho neto de Manrique de Lara é o Rafael Spottorno Díaz-Caro que fora chefe da Casa Real em tempos de Juan Carlos I de Bourbon. O dito, uma família bem organizada.*

Almeria e a Galiza

Árvore genealógica de Manuel Manrique de Lara, linha paterna. © 2022 by José Luís do Pico Orjais.Árvore genealógica de Manuel Manrique de Lara, linha paterna. © 2022 by José Luís do Pico Orjais.

Se pela linha materna, Manrique de Lara herdou um património genético virado para o negócio e o emprego público, a beira paterna legou-lhe uma desgraçada saga de heróis caídos ou mutilados em combate.

O avô paterno de Manrique de Lara, o capitão do exército José María de Lara Guajardo nasceu em Almería e morreu baleado pelo exército de Zumalacarregui em setembro de 1834. É por herdo desta rama almeriense que a família recuperará o sobrenome Manrique. Assim, no livro de batismos em que foi inscrito a menino Manuel de Lara y Pazos (pai), há uma adenda na que se pode ler: 

y en virtud del acto del Ilustrísimo Señor Provisor y Vicario General del Arzobispado de Santiago, dictado en 20 de Junio de 1872, extiendo de nuevo esta partida con las adiciones que en dicho acto se previenen. Coyro y Junio 28 de 1872. Jacobo Canedo.*  

A partir do instante da assinatura deste documento, os de Lara são oficialmente Manrique de Lara e ficam, por arte de magia, aparentados com toda uma plêiade de figuras ilustres das artes e das guerras da história hispânica.

Em resposta ao discurso de Manrique de Lara na sua entrada na Academia de Bellas Artes de San Fernando, o mestre Tragó y Arana (1857-1934) lembra esta gloriosa genealogia:

Ascendiente suyo fue aquel Conde D. Nuño González de Lara, que a mediados del siglo XI, durante el reinado de Fernando el Magno, trajo a León, desde Sevilla, el cuerpo de San Isidoro, y por su crueldad en las lides contra los sarracenos que poblaban el Mediodía de España fue denominado el Cuervo andaluz, muerto por una traición de sus enemigos en el castillo de Rueda, cerca de Zaragoza, cuando tomaba posesión de él a nombre de su rey. Ascendiente suyo fue, igualmente, aquel Conde D. Manrique de Lara, Alférez Mayor del Emperador Alfonso VII, tutor del rey Alfonso VIII y Gobernador de sus reinos […] Entre sus abuelos cuenta, asimismo, al famoso Maestre de Santiago D. Rodrigo Manrique, primer conde de Paredes de Nava cuyo esfuerzo guerrero, que le hizo vencedor en “XXIV batallas de moros y cristianos”, según rezó orgullosamente la inscripción de su sepulcro […] Más viva aún que la memoria de tanta proeza, ha llegado hasta nosotros la gloria literaria de Gómez Manrique y Jorge Manrique. [Manrique de Lara, p. 34]

Além de qualquer consideração sobre um pedigree tão avassalador como fantasioso, supomos que a justificação histórica que procurou a família baseava-se nos sobrenomes do bisavô Rafael Antonio de Lara y Mendoza, também almeriense, cujos apelidos coincidiam com os de Pedro Manrique de Lara y Mendoza (1381-1440), adiantado e notário maior do Reino de León.

Mais prosaicos são os sobrenomes galegos do autor das Orestiadas.

Quando José María Lara Guajardo (avô) é baleado pelo exército de Zumalacarregui após a ação de Viana (1834) o futuro General de Lara (pai) tinha apenas dois anos.* Na altura, Mª del Carmen de Pazos Mella (mãe) encontra-se desamparada e tem que encetar uma luta legal para que se lhe reconheçam as suas pensões como viúva e órfã do corpo: 

Las comisiones de Guerra y Marina reunidas han examinado la exposición de Doña María del Carmen Pazos de Lara, con la cual hace presente que es viuda del capitán de infantería D. José Lara y Guajardo, e hija de D Diego de Pazos, segundo comandante que fue del navío San Hermenegildo, y muerto en el incendio de este último, acaecido en la noche de 12 de Julio de 1801 en un encarnizado combate: que el expresado su marido cayó prisionero y fue fusilado por los facciosos: que de otra parte, por el hecho mismo de haber contraído matrimonio no entró en el goce de la pensión que la correspondía como hija única del desgraciado D. Diego de Pazos; y finalmente, que cuando cifraba su subsistencia y la de sus hijos en el apoyo de su hermano el coronel D. Hilarión de Pazos, también este último ha sido víctima de su valor y patriotismo en el campo de batalla.*

Entre os deputados que estudaram a causa de María del Carmen estava o ilustre galego Domingo Fontán.

A morte do capitão de Fragata Diego de Pazos (bisavô) é uma história muito curiosa. Na noite do 12 de julho de 1801, a esquadra espanhola encontrou-se com o barco britânico HMS Superb. Os ingleses puseram-se de lado do navio Real Carlos e começaram a disparar-lhe balas de canhão. Alguma deveu ultrapassar por cima dele e atingir o barco que estava de lado, o São Hemenegildo. Na confusão da noite, os dois barcos espanhóis começaram a lutar entre eles, na ideia de que a quem tinham de lado era ao inimigo. A consequência da briga, um barco inglês de apenas 74 canhões afundou dois barcos da armada espanhola de 112 cada, causando mais de 1700 mortos, cadáveres entre os que estava o avozinho de Manrique de Lara.

Diego de Pazos, além de Carmen, teve outros dois filhos, Hilarión e Gabriel (tios). O primeiro esteve casado com Celestina Pacheco e morreu sendo tenente-coronel na ação de Zubiri (1836).* Gabriel de Pazos (Ferrol, 1786-Valência 1849), casado com Dª María de los Dolores Payán Carrillo, perdeu um olho na batalha de Trafalgar, acontecida em 1805. Anos mais tarde, em 1813, é ferido novamente na batalha de São Marcial, passando posteriormente a ocupar cargos administrativos, para alívio da sua integridade pessoal.

Em resumo, a partir do estudo da árvore genealógica de Manuel Manrique de Lara conclui-se que por via materna a sua ascendência é principalmente murciana e genovesa, sendo a paterna de origem galega e almeriense. É fácil adivinhar que a veia artística vem-lhe da família materna. Parece que a primeira professora de piano foi a sua mãe, uma mulher criada no standard ilustrado da burguesia do século XIX. Do pai herda um passado militar que o condena a ter que estar, nalgum momento da sua vida, em primeira linha de combate. Não é, efetivamente, um músico militar, mais bem um militar músico. Vive numa época de mudança, onde nem Wagner nem o militarismo são a última moda, mas ele nunca renúncia nem a seu ídolo musical, nem ao seu uniforme. Todo este caldo familiar, tão rico em ingredientes de diversas proveniências, deve ter moldado a figura de um Manrique de Lara tão atípico como contraditório. Um dândi uniformizado; um soldado artista; um crítico cortês; um burguês aristocrático.

Referências bibliográficas

  1. DÍAZ GONZÁLEZ, Diana (2015), Manuel Manrique de Lara (1863-1929) Militar, crítico y compositor polifacético en la España de la Restauración. Madrid: Sociedad Española de Musicología.
  2. MANRIQUE de Lara, Manuel (1917), Discursos leídos ante la Real Academia de Bellas Artes de San Fernando en la recepción pública de D. Manuel Manrique de Lara y Berry el 27 de mayo de 1917 Madrid: Imprenta del Ministerio de Marina. p. 34
  3. MIRALLES Martínez, Pedro. (2003), Familias genovesas afincadas en Murcia vinculadas al comercio sedero. Em M. B. Villar García y P. Pezzi Cristóbal (Eds.) Los extranjeros en la España moderna. Actas del primer coloquio internacional. Celebrado em Málaga do 28 ao 30 de novembro de 2002.
Notas

1. Revistas generalistas nas que se inseriam partituras como ilustrações ou agasalhos para os leitores e leitoras, como, por exemplo, o «Blanco y Negro» do grupo ABC.

2. Família do músico local José Pérez González (Rianxo, 18 de julho de 1901; Rianxo, 29 de maio de 1942) coirmão do poeta Manuel António.

3. Os desenhos foram feitos por Eulogio Varela Sartorio (1868-1955), ilustrador habitual de «Blanco y Negro».

4. Livro de batismos da paróquia de São Julião de Coiro, Laracha, A Corunha. Arquivo Diocesano de Santiago de Compostela.

5. Entendendo que não é fácil seguir a linha genealógica com tantos nomes e sobrenomes coincidentes. É por isso que indico entre parênteses o grau de parentesco a respeito de Manuel Manrique de Lara y Berry.

6. Pertencente também a esta família Spottorno, sobrinha política de María del Carmen Manrique de Lara y Berry é a feminista espanhola Rosa Spottorno Topete, casada com José Ortega y Gasset e mãe do editor José Ortega Spottorno.

7. Livro de batismos da paróquia de São Julião de Coiro, Laracha, A Corunha. Arquivo Diocesano de Santiago de Compostela.

8. Sabemos que além do pai do nosso compositor, Carmen de Pazos tinha quando menos outro filho de nome Ángel.

9. «Diario de Sesiones», “Dictamen de las comisiones de Guerra y Marina reunidas, relativo a la exposición de Doña María del Carmen Pazos de Lara. Palacio de las Cortes. 19 de fevereiro de 1837

10. A vida de Hilarión de Pazos está repleta de atos heroicos ou mais bem temerários. Lutou em primeira linha contra o exército carlista, sempre à frente do seu batalhão até receber vários tiros na cabeça.

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