Vox nostra resonat

A guitarra na Galiza

O ensino de música na escola de pessoas surdo-mudas e cegas de Compostela

Isabel Rei Samartim
jueves, 29 de septiembre de 2022
Adornos musicais nos bancos da Alameda compostelana © 2022 by isabel Rei Samartim Adornos musicais nos bancos da Alameda compostelana © 2022 by isabel Rei Samartim
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No ensino a pessoas com diversidade funcional, a música sempre foi um elemento indispensável, pois as crianças achavam nela um ofício e sustento laboral, uma profissão e um sentido às suas vidas. No caso galego, as Escolas dedicadas a este tipo de alunado também foram pioneiras no ensino de instrumentos musicais, especialmente da guitarra e dos cordofones dedilhados.

Em 1845 publicava-se em Madrid um primeiro Programa geral para o ensino de pessoas surdas e mudas. Mas não é até 1857, com a primeira Lei reguladora do ensino no Reino da Espanha, conhecida por Ley Moyano, que se estabelece de modo oficial a criação de centros de ensino especiais para pessoas com diversidade funcional, especialmente pessoas surdas, mudas e cegas. Assim, temos de aguardar até 1863 para que o professor formado em ensino especial, Manuel López Navalón (Toledo, 1833 - Compostela, 1902), seja nomeado diretor interino da Escola de Surdos, Mudos e Cegos em Santiago de Compostela.

Manuel López Navalón

Bases e regulamento da Escola López Navalón de Compostela. 1863. Fonte: BUSC. © 2022 by Isabel Rei Samartim.Bases e regulamento da Escola López Navalón de Compostela. 1863. Fonte: BUSC. © 2022 by Isabel Rei Samartim.

Docente republicano, maçom e protestante (Rodriguez, 2015, p. 326), o castelhano Manuel López Navalón estudou magistério em Madrid, onde trabalhava como Professor de Escritura no Colegio Nacional de Sordomudos y de Ciegos desde 1854. Em 1863 assume o cargo de Diretor do centro compostelano e será aqui onde realize um trabalho imenso de revolução pedagógica.

Navalón estabeleceu uma relação especial com o seu alunado, para o que empreendeu infinidade de iniciativas: Foi o construtor de vários aparatos didáticos para a explicação das matemáticas, da geometria e da astronomia como o astronógrafo, o cronógrafo e o planímetro. Aplicou um sistema de escritura para cegos próprio além do Braille, um sistema de notação musical próprio, implementou o estudo do esperanto e os estudos musicais para o alunado invisual. Promoveu entre o alunado sem audição nem fonação o desenho e a pintura, e entre o invisual a publicação de clássicos da literatura em relevo dos que o arquivo da Escola conserva dois do ano 1877, o Quijote e uma História de Lugo.

Sócio de mérito da Sociedade Económica, Navalón organizou numerosas saídas do alunado para a participação em eventos onde recebiam prémios que serviam para promover a Escola, ganhar financiamento e conferir prestígio aos ex-alunos no seu futuro laboral.

O edifício da Escola

Trio de alunos cegos da Escola Lopez Navalon, 1910. Fonte: Vida Gallega. © 2022 by Isabel Rei Samartim.Trio de alunos cegos da Escola Lopez Navalon, 1910. Fonte: Vida Gallega. © 2022 by Isabel Rei Samartim.

A Escola foi inaugurada em 1864 sob a administração da Universidade e o patrocínio das Deputações provinciais. A sua primeira sede estava no antigo Hospício, em São Domingos de Bonaval, onde permaneceria durante cem anos. Desde o início pensou-se essa localização como provisória, à espera da construção de um edifício que reunisse as condições adequadas. Esse seria o objetivo da construção do atual edifício administrativo da Junta da Galiza em São Caetano. Mas a transferência não se realizaria até ao ano de 1964, justo um século mais tarde da inauguração da Escola, e seria por pouco tempo. Atualmente, o Centro de Educação Especial Manuel López Navalón está situado no lugar Casas do Rego, 20, em Compostela.

Os documentos sobre música

O ensino musical para o alunado invisual era tratado já na Memória do ano 1867 realizada pelo seu diretor e mestre (López Navalón, 1867, pp. 27-28):

Ninguno más sensible que el ciego, ni más delicado que su oído. De ahí que muestre tan decidida afición a la música y que una vocación irresistible le conduzca á su estudio. Tan feliz disposición unida á la pasión y hasta entusiasmo con que a ella se entrega, produce sorprendentes resultados y son causa de rápidos progresos, si un buen método de enseñanza dirige sus primeros pasos.
Terminada ya su instrucción, son muchísimos los que después pasan a dar lecciones de música, o a desempeñar plazas de organistas y aún de cantores. Así se les proporciona una independiente posición y una decorosa subsistencia que les ponga al abrigo de la miseria, cualquiera que sea la localidad que habiten.

Carta do Reitor da USC, J. J. Viñas, estabelecendo 8 escudos por mês para partituras. Fonte: Arquivo da Escola. © 2022 by Isabel Rei Samartim.Carta do Reitor da USC, J. J. Viñas, estabelecendo 8 escudos por mês para partituras. Fonte: Arquivo da Escola. © 2022 by Isabel Rei Samartim.

Pelas comunicações oficiais consultadas por mim em 2014, sabemos que no mês de junho de 1868 é nomeado Miguel García Fernández como professor de música com um salário de 300 escudos. Nesse mesmo ano produz-se a compra de partituras em Braille. Em maio do ano a seguir é nomeado professor ajudante de música Joaquim Maria Castanhos e propõe-se uma mudança do piano. Em 1870 morre Miguel García e nomeia-se Ramom Bugueiro como professor principal de música, com um salário de 750 pesetas anuais. Ao mesmo tempo sai Castanho e entra como professor ajudante o flautista Gregório Bárcia, com um salário de 250 pesetas anuais.

A Escola participou na Exposição de Paris em 1867 e na de Viena em 1873. Em 1875 ganhava a medalha de ouro e diploma da Sociedade Económica de Compostela. Em 1876 participava na primeira Exposição Universal realizada fora da Europa, a de Filadélfia. Após o sucesso na Exposição de Lugo em 1877, onde a Escola levou uma outra medalha de ouro, António Casares, reitor da Universidade determinou a criação oficial da secção de música, a sua composição, o salário do professorado e a aquisição de instrumentos. Este documento, com data de 18 de junho de 1878, é o primeiro a evidenciar o ensino de guitarra/viola e cordofones dedilhados de braço num centro galego de ensino oficial.

Os documentos antes citados pertencem ao arquivo da Escola de Surdo-Mudos e Cegos, que consultei diretamente na Escola por amabilidade da diretora em 2014, Fátima García Doval. O arquivo contém todo o tipo de documentos administrativos referentes ao alunado, professorado, subsídios e despesas. Uma das pastas tem os rascunhos sem datar, manuscritos do diretor, com a relação das obras musicais e dos instrumentos que havia em cada momento.

Os instrumentos e partituras da Escola

Tuna Compostelana em São Clemente, 1911. © 2022 by Isabel Rei Samartim.Tuna Compostelana em São Clemente, 1911. © 2022 by Isabel Rei Samartim.

Não podemos afirmar a data exata em que os instrumentos foram comprados, mas sim sabemos que até 1902, data do falecimento de López Navalón, havia na Escola à disposição do alunado invisual 2 guitarras, 2 bandurras, 3 violinos, 1 sanfona e 8 flautas, uma delas de ébano com chaves de prata. A Escola tinha também 2 pianos, 1 harmónio e numerosas partituras para estes instrumentos. Uma comunicação oficial de 1932 assinada pelo professor José Gómez Veiga (Pepe Curros) informa de que nessa altura a Escola contava com dous pianos Bernareggi que estavam em uso desde antes do ano 1883.

Além das obras escritas em sistema Braille para piano, o arquivo tem partituras publicadas em tinta, entre as que se acha música para piano a duas e quatro mãos, violino e piano, flauta e piano, duas flautas e piano, três flautas, música religiosa para harmónio e canto, métodos de solfejo e os métodos para guitarra e bandurra de Antonio Cano.

A organização das aulas

Nas Bases do regulamento da Escola publicadas pelo reitor universitário Viñas Balduvieco, vemos que os estudos estavam divididos em dous níveis de 4 anos cada um. No total, as crianças estudavam durante 8 anos. O primeiro nível era comum a todo o alunado, tinha por objeto o ensino elementar a varões e mulheres separados por género. O segundo nível era de ampliação ou de especialização nalguns dos ofícios propostos pela Escola (Viñas, 1863, p. 11). Como a música era um destes ofícios, foi assim que saíram os primeiros professores e professoras de piano e guitarra formados num centro oficial de ensino de música na Galiza.

O alunado e o profesorado

Entre o alunado guitarrista achamos Luis Agote Aguiar, que também aprendeu violino. Natural de Cesuras, na comarca de Betanços, Luis Agote tinha ficado sem vista aos 18 meses. Aparece na relação do alunado desde 1899 até 1906. Em 1908, com 22 anos, foi nomeado professor ajudante de música da Escola e assim continuaria até 1922, momento em que apresentou a sua renúncia. 

Pieza enlazada

Nesse mesmo ano Júlio Mirelis Malvar, sobrinho do guitarrista Júlio Mirelis Garcia, já tratado nesta série, era nomeado segundo professor do centro, com um salário de 1.500 pesetas anuais. Desde a renúncia e suspensão de Agote, a Escola ficou sem professor com formação guitarrística até que em 1930 vemos entre o professorado o violinista José Gómez Veiga, conhecido regente da Tuna em Compostela e também diretor e professor na Sociedade Económica, contratado para lecionar violino e piano.

Um outro aluno guitarrista era Juan Nine, de Compostela, que ingressa no centro com 20 anos em outubro de 1900 (Cruz e Buján, 1906, pp. 31 e 34). Entre o alunado ilustre da escola estavam Juan Lorenzo González, de Compostela, fundador da primeira Escola de Cegos de Buenos Aires, Ricardo González, fundador da Escola do Ferrol, Leon Parga, professor na Escola de José María Salgado na Corunha, Ramon Ulloa Blanco, luguês e notável pianista, Antonio Taboada, pianista e organista na Ponte Vedra, um outro organista, Juan Ponte, de Betanços, Antonia Menéndez, organista em Compostela e Concepción Gestoso, organista na Estrada (p. 26).

Atividades e galardões

Orquestra de plectro em Compostela. Década de 1940. Fonte: Arquivo de Alejo Amoedo. © 2022 by Isabel Rei Samartim.Orquestra de plectro em Compostela. Década de 1940. Fonte: Arquivo de Alejo Amoedo. © 2022 by Isabel Rei Samartim.

O alunado da Escola dirigida por López-Navalón, especialmente representado pela secção musical, levou o Grande Diploma de honor na Exposição da Ponte Vedra em 1880, medalha de ouro, de prata e diploma na de Lugo em 1896, prémio de honra e 300 pesetas ao alunado da orquestra de cordofones dedilhados no Concurso de rondallas organizado pela Liga de Amigos, na Corunha, onde concorreram com outros agrupamentos formados por videntes. Também recebeu uma distinção honorífica em 1905, do coro Unión Artística Compostelana e nomeamento do alunado como sócios de mérito. E, em 1906, vários diplomas no certame musical organizado pela Escola Normal de Mestres de Compostela. O Teatro Principal estabelecia a entrada gratuita para as funções ao alunado invisual e os seus acompanhantes (Cruz e Buján, 1906, pp. 28-30).

Já no início do século XX, o segundo diretor da Escola, José Cruz Letamendi, escreve na sua Memória manuscrita uma relação de outro alunado e professorado, entre os que estavam os antigos alunos Francisco Méndez Dávila que em 1912 deixa a Escola para ir trabalhar como pianista a um café de Vigo, cidade onde em 1916 propiciará a fundação da Escola viguesa, e Manuel Illobre Bello, que em 1915 faz o mesmo num café de Compostela e, como organista, numa das sociedades religiosas da cidade. Parece que Illobre foi mais tarde pianista e organista em Mugardos. Em 1916, um outro aluno, Joaquim Silva, abandona a Escola para ir trabalhar como pianista em Ourense. Dele Letamendi diz textualmente: "designado para pianista del casino de la villa de La Rua Petin (Orense)". Os concelhos vizinhos da Rua e de Petim estavam atravessados pelo caminho-de-ferro que ia da Palência à Corunha. A sua estação, denominada A Rua-Petim, constituía desde 1883 um ponto frequentado por muitos viageiros. Não sabemos se este casino estaria na Rua, em Petim, ou num lugar intermédio próximo da estação dos comboios. É importante não confundir com o atual Casino da Rua, que foi fundado em 1951.

O financiamento da Escola

Letamendi, como antes tinha feito Lopez Navalon, também expressa a necessidade da música no centro:

organiza agrupaciones musicales dando a los alumnos facilidades para que puedan concurrir á todos los actos en que se reclame su presencia haciéndolos partícipes de los beneficios, que luego depositan en sus huchas de ahorro, y así, con el continuo trato en los negocios de los hombres tengan los ciegos un concepto real de lo que el mundo les promete al terminar su vida de colegiales. Mas hemos de confesar que para llevar á cabo en toda su extensión lo que dejamos consignado el Colegio necesita más medios materiales y nueva organización.

Com efeito, nas comunicações internas e nas relações do alunado inscrito vê-se como o patrocínio das deputações chega quase sempre com atraso, que o número do alunado invisual nunca iguala os outros tipos de diversidades funcionais, e que em muitas ocasiões não se ocupam todas as vagas disponíveis por esta falta de financiamento efetivo, vendo-se constantemente obrigados a valer-se da ajuda voluntária da cidadania.

O sistema de notação musical de López Navalón

Sobre o sistema usado por López Navalón, diz Letamendi na Memória antes citada:

Sistema de notación musical modificada por el Sr. Navalón. Es el mismo seguido en Madrid por los años 60 y 68 modificado de modo que facilita la rapidez y claridad de la lectura y escritura. Tiene distintos signos para las notas y demás signos musicales. Constituye cinco tablas que contienen el pentagrama, notas, y signos musicales en relieve con alambres con la forma que tienen las letras para después escribirlas con lápiz en la pauta.

Algumas notícias sobre os músicos formados na Escola

Em 1882, a Gaceta de Galicia dá notícia dum jovem cego, ex-aluno da Escola de Compostela, que chega a Vigo para ensinar guitarra, bandurra e flauta e tinha sido premiado na Exposição Regional da Ponte Vedra em 1880. O aluno cego premiado naquele evento era o pianista lucense Ramon Ulloa Blanco.

Em 1898, La Correspondencia Gallega anuncia que um duo formado por intérpretes invisuais toca no Liceo Gimnasio da Ponte Vedra, na mesma notícia figura o anúncio da abertura do prazo de inscrição na Escola Lopez Navalon de Compostela. Os invisuais eram membros do alunado que estavam a publicitar a Escola. Destaca a notícia de uma festa em Briom, comarca da Amaía, em que participaram cegos com violinos, sanfonas, pandeiretas e guitarras que seria também alunado da Escola de López Navalón (Gaceta de Galicia, 1899).

Por último, em dezembro 1904 a orquestra de cordofones da Escola, que acabava de receber outro prémio na Corunha, participou no concerto organizado pela Unión Artística Compostelana em honra da Sociedade Artística Musical da Ponte Vedra. A orquestra tocou a abertura da ópera Cavalleria Rusticana de Pietro Mascagni e a Serenata de Benjamin Godard (Gaceta de Galicia, 1904). Nesse concerto, em que também se interpretou música dos galegos João Montes, José Santos e um tal Areal da Ponte Vedra, participaram músicos como Pepe Curros, que mais tarde será professor da Escola, José Fernández Tafall, dirigindo um coro, e a excelente pianista Teresa Landeira, que será mais tarde também professora na Sociedade Económica compostelana.

Referências bibliográficas
  1. Cruz Letamendi, J. e Buján Suárez, C. (1906). Memoria de una estadística de sordomudos y de ciegos de la región galaica. Santiago de Compostela: Tipografia Municipal.
  2. Gaceta de Galicia (1882). Santiago de Compostela: 11 de novembro, p. 3.
  3. Gaceta de Galicia (1899). Santiago de Compostela: 29 de setembro, p. 2.
  4. Gaceta de Galicia (1904). Santiago de Compostela: 10 de dezembro, p. 4.
  5. La Correspondencia Gallega (1898). En el Gimnasio. Ponte Vedra: 15 de novembro, p. 3.
  6. Lopez Navalon, Manuel (1867). Memoria sobre el estado actual del Colegio de Sordo-Mudos y de Ciegos de Santiago y mejoras de que es susceptible para su futuro progreso y prosperidad. Santiago de Compostela: Manuel Mirás.
  7. Rodriguez Diaz, Ana (2015). Memoria de Galicia en la institucionalización de la enseñanza de la infancia anormal (finales del XIX y principios del XX). Tese de doutoramento. UNED.
  8. Viñas Balduvieco, Juan José (1863). Bases y reglamento para el régimen del Colegio de Sordo-Mudos y de Ciegos del distrito universitario de Santiago. Santiago de Compostela: Manuel Mirás


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