Vox nostra resonat

A guitarra na Galiza

António Jimenez Majon na Galiza e Portugal

Isabel Rei Samartim
jueves, 27 de octubre de 2022
Antonio Jiménez Manjón © 1888 by La Ilustración Española y Americana Antonio Jiménez Manjón © 1888 by La Ilustración Española y Americana
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O guitarrista cego Antonio Jimenez Manjon (Villacarrillo, 1866 - Buenos Aires, 1919), virtuoso andaluz, deixou pegada nos jornais e outros textos galegos em 1886, 1890 e 1891. Um respeitado membro do Circo de Artesãos da Corunha, e autor da publicação das atas dessa sociedade, Félix Estrada Catoyra (Porto Príncipe, hoje Camagüey, 1853 – Corunha, 1938), deixa constância de uma festa em benefício de Jimenez Manjon no mês de junho de 1886 (Estrada, 1986, p. 119).

Possíveis recitais na Corunha

O facto de haver uma festa em benefício do guitarrista indica que ele ter-se-ia dado a conhecer com um recital. Supomos, portanto, que Manjon tocou dessa vez na Corunha naquela festa de “gran éxito artístico y pecuniario”, onde o guitarrista foi acompanhado do grupo musical do Batalhão da Caçadores de Reus. Na Crónica de Pontevedra (1886c), na secção de toda a Galiza, afirma-se que dará um outro concerto no Circo de Artesãos. Portanto, como seria de prever, Manjon deveu tocar várias vezes na Corunha, ainda que não tenhamos notícias explícitas desses concertos e os seus programas.

Manjon na Ponte Vedra

A Crónica de Pontevedra deixa-nos, além da anterior, mais duas notícias também do mês de junho de 1886 onde se informa da estadia de Manjon na cidade e se nomeiam algumas obras do seu programa. O guitarrista realizou concertos pelo menos em dous locais, Hotel de Madrid e Liceu-Casino. A guitarra de onze cordas que tocava era vista na Galiza desde a perspetiva portuguesa: 

Su especialidad es la moderna guitarra de once órdenes que los portugueses llaman viola francesa. 

O último recital antes da sua vinda à Galiza tinha sido no Palácio de Cristal do Porto, hoje Pavilhão Rosa Mota, em Massarelos (Porto).

As notícias pontevedresas (Crónica de Pontevedra, 1886a; 1886b) recolhem a ocupação quase completa da sala do Liceu Casino, a surpresa pelas características do seu instrumento 

que no pudimos clasificar pues es algo de guitarra española y viola portuguesa, compuesta de once órdenes de cuerdas, tres de las cuales están al aire. 

Estas notícias referem explicitamente Manjón como guitarrista clássico.

Da Ponte Vedra, Manjon viajou até Paris possivelmente através do porto de Vigo. A nota do El Regional (1886) que informa desta viagem está datada dous dias a seguir ao último concerto pontevedrês. Mas, logo iria voltar à Galiza, pois em julho de 1886 vemos Manjón em Lugo partilhando recital com João Montes e os seus colaboradores, Alonso e Latorre, que apadrinharam o virtuoso cego.

Manjón em Lugo

Programa 1. Manjón. Fonte: El Lucense, 1886a. © 2022 by Isabel Rei Samartim.Programa 1. Manjón. Fonte: El Lucense, 1886a. © 2022 by Isabel Rei Samartim.

No Círculo das Artes os famosos músicos lucenses abriram a primeira e segunda parte do recital, em que soou o trio de harmónio, piano e violino, para depois deixar passo à intervenção do guitarrista (El Lucense, 1886a). Era esta uma prática habitual de Montes, a de receber, promover e acompanhar os e as músicas ilustres que chegavam a Lugo. Dous dias mais tarde anunciava-se um novo recital com o sexteto de Montes no Casino (El Lucense, 1886b). O programa, ainda que repete alguma obra de guitarra, difere do recital anterior.

Programa 2. Manjón. Fonte: El Lucense, 1886b. © 2022 by Isabel Rei Samartim.Programa 2. Manjón. Fonte: El Lucense, 1886b. © 2022 by Isabel Rei Samartim.

Em 17 de julho aparece uma curiosa nota ligada ao acompanhante de Jimenez Manjon, referido como "criado", o qual era de origem portuguesa. Ao parecer esta pessoa foi detida pela polícia na Ponte Vedra por motivos que a notícia não facilita (Crónica de Pontevedra, 1886d).

Retorno do virtuoso

Manjon retorna a Portugal e Galiza nos anos 1890 e 1891. Em maio de 1891 está de novo na Ponte Vedra (El Diario de Pontevedra, 1916) onde toca no dia 17 acompanhado da sua esposa, a pianista Rafaela Salazar. Rafaela Salazar (m. 1944) acabou a sua formação pianística com Prémio Extraordinário no Conservatório de Madrid, casou com Manjon em 1890 em Saragoça e ajudou-o na composição e transcrição das suas obras. Teve vários filhos e após a morte do seu marido em Buenos Aires, em 1919, Rafaela retornou a Toledo levando os manuscritos das obras que não se publicaram em vida de Manjon (Ramos, 2009).

Programa do Liceu da Ponte Vedra, 17 de maio de 1891. Fonte: Museu da Ponte Vedra. © 2022 by Isabel Rei Samartim.Programa do Liceu da Ponte Vedra, 17 de maio de 1891. Fonte: Museu da Ponte Vedra. © 2022 by Isabel Rei Samartim.

No programa desse concerto em 1891, um de cujos exemplares conserva-se no arquivo do Museu da Ponte Vedra, na cota Casal 25-73, vemos que a música estava dividida em três partes realizando-se a duo de piano e guitarra, a piano só, a guitarra só e, finalmente, de novo a duo. As obras interpretadas foram, para duo: Tema y variaciones de Hummel e Rondó en la menor de Aguado. Para guitarra: Recuerdos de mi patria de Manjón, Adagio de la sonata 14 de Beethoven, Polonesa de Arcas, Célebre fandango de Manjon. Para piano: Fantasía op. 28 de Mendelssohn, Preludio en re bemol e Vals en la bemol de Chopin, Primer tiempo del concierto en la menor de Herz. De novo para guitarra só: 2ª Gran Sonata en do (Andante, Allegro, Tema con variaciones, Minueto) de Sors, e para rematar a velada, um duo de guitarra e piano: Jota de Manjon.

O programa fora publicado pela Viuda é hijos de Madrigal, famosa imprensa pontevedresa, que também realizou para a ocasião uma recolha de artigos de jornal a qual imprimiu em folha volante a modo de anúncio do eminente concertista cego. Nesta segunda publicação, conservada também no arquivo do Museu da Ponte Vedra na cota Casal Planero 5-14, os editores recolheram resenhas laudatórias sobre Manjon tiradas dos jornais La Ilustración Española y Americana, El Imparcial, El Resúmen, El Noticiero Universal e um poema de Manuel del Palacio lido numa velada do Ateneo de Madrid, que o autor dedica ao guitarrista.

Manjon em Lisboa, Coimbra, Porto, Vigo e Ferrol

Capa da edição de Francisco Nunes em Buenos Aires do "Aire vasco" de Manjón. Fonte: Biblioteca della chitarra e del mandolino. © 2022 by Isabel Rei Samartim.Capa da edição de Francisco Nunes em Buenos Aires do "Aire vasco" de Manjón. Fonte: Biblioteca della chitarra e del mandolino. © 2022 by Isabel Rei Samartim.

Em junho de 1890 vemos Manjon em Coimbra dirigindo-se ao Porto (A República, 1890). Em julho está em Vigo, a imprensa deixa constar que se propõe dar um recital e publica uma breve resenha biográfica onde indica, sem data, que foi aclamado em Lisboa (El Eco de Galicia, Lugo, 1890). Em 19 de agosto desse ano toca com Rafaela Salazar no Teatro Romea do Ferrol (Ocampo, 2001).

Se Manjon se apresentou em diversas cidades portuguesas, compôs um pot-pourri de música portuguesa, estava casado com uma pianista de apelido português e possível origem portuguesa, e se acompanhava de um servente também português, talvez devamos supor que o virtuoso invisual teve uma vida artística e social em Portugal algo maior da que até agora se tinha entendido. Encorajamos, pois, às e aos colegas portugueses a aprofundar no estudo de António Jimenez Manjon em Portugal.

O mito do modelo Torres

Além disso, a curiosa aparência de instrumento híbrido entre "guitarra espanhola" e "viola francesa" num instrumento construído por António Torres põe de manifesto que entre o final do século XIX e começo do XX não estava completamente estabelecido o tal modelo único para as guitarras/violas. E que não foi Torres o “inventor” desse modelo, mas sim um bom construtor de diversos modelos de guitarras. Os construtores, como agora sabemos, elaboravam instrumentos de diferentes formas, tamanhos e número de cordas em toda a península, como ainda acontece com as violas populares em Portugal.

Contracapa da edição de Francisco Nunes em Buenos Aires do "Aire vasco" de Manjón. Fonte: Biblioteca della chitarra e del mandolino. © 2022 by Isabel Rei Samartim.Contracapa da edição de Francisco Nunes em Buenos Aires do "Aire vasco" de Manjón. Fonte: Biblioteca della chitarra e del mandolino. © 2022 by Isabel Rei Samartim.

Os mitos costumam ser construídos depois da morte dos seus referentes. Pelo geral, @s grandes artistas como António Torres fazem o seu trabalho sem preocupações espúrias nem apropriações indevidas. Não foi intenção de Torres a de criar um modelo único de guitarra, nem a de extinguir o resto de modelos diversos que existiam para o que nós costumamos chamar de ‘grande família das guitarras’. Mas, o certo é que ao longo do século XX muitas outras pessoas trabalharam tanto para construir a “guitarra única”, atribuindo-a a Torres, quanto para identificar esse modelo-mito com o símbolo nacionalista espanhol mais conhecido por guitarra española. Quem alinhar em mitos, poderá continuar a construir esse. Mas quem for mais amig@ da verdade, à luz dos dados, terá de usar o pensamento crítico.

Obras que Manjón tocou na Galiza

Eis a listagem das obras de que temos conhecimento que Manjón tocou na Galiza na sua viola de onze cordas. Obras e arranjos de Manjon:

  1. El alma de Julia Somalina. Manjon.
  2. Primavera. Mendelssohn.
  3. Potpourri español y portugués. Manjon.
  4. Aurora. Mazurca. Manjon
  5. Recuerdos de mi patria. Manjon.
  6. Célebre fandango. Manjon.
  7. Jota, para guitarra e piano. Manjon.
  8. Adagio de la Sonata, Clair de Lune. Beethoven.
  9. Potpourri. Cuevas.
  10. Canto árabe. Cuevas.
  11. Ouverture de Semíramis. Rossini.
  12. Plegaria y miserere del Trovador. Verdi.

Obras de outros autores interpretadas por Manjon:

  1. Walses de concierto, Arcas.
  2. Polonesa, Arcas.
  3. Nocturno, para guitarra-lira, Cano.
  4. Melodia para guitarra, Liszt, Cano.
  5. 17. Gran sonata en do, Sors.
  6. Rondó en la m, Aguado, para guitarra e piano.
  7. Tema y variaciones, Hummel, para guitarra e piano.

A mazurca Aurora pode ser a romanza La Aurora, obra original de Manjon. Jeffery (1994/2011) publicou a partitura desta obra, junto com algumas das aqui referidas: Recuerdos de mi patria, os arranjos do Adagio da Sonata de Beethoven e da Romanza sem palavras da Primavera de Mendelssohn. Não sabemos se o mencionado Cuevas seria familiar do José Cuevas, diretor artístico da revista La Ilustración Gallega y Asturiana, morto em 1881, autor de famosos desenhos nas capas das partituras de zarzuelas e sainetes (Iglesias e Lozano, 2008, p. 41).

Manjon na América

Pieza enlazada

O guitarrista e investigador espanhol, Ignacio Ramos Altamira, em artigo publicado pela revista Roseta (2008), lamenta-se do pouco estudo que a musicologia do seu país realizou sobre o virtuoso, cego e andaluz, António Jimenez Manjon, à vista do seu enorme valor musical, tanto interpretativo quanto compositivo, que era refletido no sucesso dos seus concertos e giras. Cabe aqui reparar em que esse esquecimento não apenas aconteceu com Manjon, mas com todos e todas aquelas artistas que emigraram à América e se estabeleceram em novos Estados independentes da Coroa de Castela. Não podemos assegurar que tais independências foram a causa do abandono desses artistas, mas o certo é que os dados apontam para essa possibilidade.

Manjon emigra à América pouco depois da sua estadia na Galiza. Era o ano de 1893 e realiza concertos em vários países antes de se assentar em Buenos Aires (Argentina), em 1902. O tema da ocupação espanhola estava na mesa por causa da guerra de Cuba e Porto Rico (1898), que acabou com a última dependência colonial da América. É por isso que um Manjon livre, sensato, sensível às demandas populares e de ideias políticas claras, mesmo sem alinhar com qualquer categoria teórica, expressava-se assim num seu artigo publicado em 1900, no jornal El Chileno (Ramos, 2008, p. 56):

Y lo mismo admiro a los saguntinos que a los aztecas, igual a los numantinos que a los araucanos, del mismo modo a los zaragozanos que a los filipinos contemporáneos, llámese el invasor Cartago, Roma, España, Francia, Estados Unidos de Norteamérica (no de América como ahora en son de amenaza se llaman). Mi corazón está de parte del que defiende el propio hogar sin medir sus fuerzas ni las del contrario, y si no puedo menos de asombrarme ante el arrojo y osadía de Hernán Cortés en su grandiosa epopeya, admiro aún más al último Emperador mexicano resistiéndose hasta morir, simpatizo más con los aztecas presentando frente a los españoles que con los tlaxcaltecas aliándose a ellos en contra de sus hermanos.

Mais uma vez fica claro que @s grandes artistas têm ideias políticas universais, compreendem socialmente o mundo e não temem dar a conhecer a sua opinião, ainda que isso lhes arranje poderosos inimigos que podem fazer esquecer a sua memória. Mas, a gente honrada e decente sempre terá amigos para recuperar e trazer de novo a sua memória à atualidade.

Influência de Manjon

Pieza enlazada

Manjon ainda voltaria à Europa os anos de 1912 e 1913, realizando uma gira de concertos pela Itália, França e Espanha. Foi notável o seu relacionamento em Buenos Aires com o luthier galego Francisco Nunes Rodrigues, principal editor das suas obras e do seu método para guitarra na capital argentina e possível ponto de ligação com um outro guitarrista dos fundos galegos, Agustin Gomez, que como Manjon também realizou um arranjo do Miserere do Trovador de Verdi para guitarra. Ainda desconhecemos o verdadeiro tamanho da atividade guitarrística galega em Buenos Aires, mas com cada informação nova nos reafirmamos na sua intensidade e influência em torno da loja de Francisco Nunes, que tão bem conheceu Manjon.

Referências bibliográficas

  1. A República (1890). Porto: 22 de junho, p. 2.
  2. Crónica de Pontevedra (1886a). Ponte Vedra: 15 de junho, p. 3.
  3. Crónica de Pontevedra (1886b). Ponte Vedra: 16 de junho, p. 3.
  4. Crónica de Pontevedra (1886c). Ponte Vedra: 17 de junho, p. 3.
  5. Crónica de Pontevedra (1886d). Ponte Vedra: 17 de julho, p. 3.
  6. El Diario de Pontevedra (1916). Hace hoy 25 años. Ponte Vedra: 15 de maio, p. 2.
  7. El Eco de Galicia. Diario de la tarde (1890). Lugo: 16 de julho, p. 2.
  8. El Lucense (1886a). Lugo: 13 de julho, p. 3.
  9. El Lucense (1886b). Lugo: 15 de julho, p. 3.
  10. El Regional (1886). Lugo: 18 de junho, p. 2.
  11. Estrada Catoyra, F. (1986). Contribución a la Historia de La Coruña. La Reunión Recreativa e Instructiva de Artesanos en sus ochenta y tres años de vida y actuación. Corunha: Reunión Recreativa e Instructiva de Artesanos. É reimpressão do livro publicado em 1930.
  12. Iglesias Martínez, N. e Lozano Martínez, I. (2008). La música del siglo XIX. Una herramienta para su descripción bibliográfica. Madrid: Biblioteca Nacional de España. 
  13. Ocampo Vigo, E. (2001). Las representaciones escénicas en Ferrol: 1879-1915, cap. 4. Madrid: Universidad Nacional de Educación a Distancia.
  14. Ramos Altamira, Ignacio (2008). "Una biografía inédita de Antonio Jiménez Manjón". Roseta, 1, pp. 44-56.
  15. Ramos Altamira, Ignacio (2009). Antonio Jiménez Manjón en Madrid (1913). 
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