Vox nostra resonat

A guitarra na Galiza

Eulógio Gallego Martinez, um virtuoso da Límia (3)

Isabel Rei Samartim
jueves, 18 de mayo de 2023
Retrato de Laurent de Rillé (1828-1915) por Dragon. © Dominio Público / CC Wikipedia Retrato de Laurent de Rillé (1828-1915) por Dragon. © Dominio Público / CC Wikipedia
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Meses mais tarde, no domingo 24 de maio de 1903, a Gaceta de Galicia relatava o concerto organizado, novamente, pelo Círculo Católico de Obreros no Salão Apolo de Compostela, às 20h da tarde daquela quinta-feira. O autor da crónica deixava-nos uma descrição pormenorizada do ambiente prévio ao concerto (Moar, 1903a):

Arropada, como por encanto, la no sé si llame cómoda sillería; iluminados los semblantes por el blanco resplandor de los soles eléctricos; formando típico conjunto los menestrales vestidos con los trapillos de cristianar y nuestras venustas artesanas que algo estrenaban como de rigor en tal fecha, pude observar que era día de revolución por el cambio de las costumbres de invierno, pero necesaria por el calor, y apacible y hermosa por las flores primaverales… Repúblicos de las letras subían á la plataforma, y la conversación grave de modistas y obreros sustituía al chichisveo de las damiselas y los elegantes, concurrentes otros días á aquel salón de verano, que trocó los adornos de estuco por pintura decorativa…

Orfeão e grupo de plectro do Círculo Católico

Iniciava o concerto o orfeão e o grupo de plectro do Círculo, dirigidos por Manuel Valverde Rei (1865-1929), primeiro violinista da Capela da catedral (Freitas, 2018-2019). Tocaram Gavota del Bateo, e por petição do público, uns passodobles sobre motivos de El Pillo e Mariquiña. A primeira peça poderia ser uma parte da zarzuela El pillo de playa, com música de Hermoso e Chaloces e letra de Jimenez Prieto e Montesinos. A segunda peça possivelmente seria a canção de Chané Um adeus a Mariquinha. O jovem pianista Ángel Brage Villar tocou no piano o Grand Scherzo de Gottschalk e o Rondó da 15ª Sonata de Beethoven. 

Retrato de José Baldomir, fonte: Vida Gallega, 1918. © Dominio Público / CC Wikipedia.Retrato de José Baldomir, fonte: Vida Gallega, 1918. © Dominio Público / CC Wikipedia.

O barítono Sr. Muras cantou a Cavatina de Ernani de Verdi e, por petição do público, a canção Meus amores de José Baldomir. O cronista reparava nesta obra, sobre a que fazia um interessante comentário sobre o barítono:

en que hace varios pasajes difíciles, y gala de su buena vocalización y de dar con fuerza los «allegros de bravura». Antes que el poco cuidado en su conservación y el demasiado ejercicio oscurezcan una voz de tan gran volumen, ¡que los poderosos le abran el Conservatorio!

Pieza enlazada

Entendemos que Moar pedia que Muras fosse professor no conservatório de Madrid. O guitarrista limiano tocou novamente a Marcha de Luis XVI e, por petição do público, a Malagueña de Vatergenr [?] “que ejecutó con la guitarra sobre las espaldas”. As obras que precisaram acompanhamento de piano foram assistidas pelo maestro Lens. O recital de poesia contou com os habituais Santaló, Villelga, Rey Gacio, Garcia Vazquez Queipo e Garcia Sanmillan que recitou umas redondilhas em galego e, por petição do público, o seu poema A Orfa.

Final do ano letivo

Pieza enlazada

O dia 11 de junho de 1903 teve lugar o evento solene de final do ano letivo com música e poesia na sede do Círculo Católico de Obreros, situada na Rua Nova (Moar, 1903b). Atuaram o maestro pianista Enrique Lens Viera; o seu discípulo Ángel Brage que tocou o Galop do pianista e construtor austríaco, estabelecido em Paris, Henri Herz; o barítono Muras interpretou uma ária de Simon da zarzuela de Ruperto Chapí, La Tempestad, o cantor Hipólito Fernandez e o grupo de plectro de Valverde interpretaram uns ares malaguenos «que más hermosos y mejor ejecutados no se oyen ni en el mismo Perchel», a abertura de Agua, azucarillos y aguardiente, zarzuela de Chueca arranjada para guitarras e bandurras por Valverde, e a obra Airiños d’a terra. O cronista diz que tocaram esta obra «a instancias del señor Suarez Salgado», provavelmente Francisco Suarez Salgado, fundador da revista ultraconservadora Acción Católica.

Depois Valverde dirigiu o orfeão e interpretaram La canción de Abril de Laurent de Rillé, autor que, como sabemos, fazia parte do repertório habitual do agrupamento de Valverde. O autor da crónica dedicou a Eulógio Gallego estas palavras:

Es de aplaudir la destreza con que toca la guitarra el joven don Eulogio Gallego; que llamó la atención en los dos números que le fueron encomendados.

Retrato da orquestra de plectro Airinhos da minha terra. Fonte: El Correo Gallego, 29/09/1903. © 2023 by Isabel Rei Samartim.Retrato da orquestra de plectro Airinhos da minha terra. Fonte: El Correo Gallego, 29/09/1903. © 2023 by Isabel Rei Samartim.

Em 12 de agosto, a Gaceta de Galicia publica uma notícia assinada por F. P. D. [Perez Deza?] (1903) sobre a festa organizada na Escola de Âmio, com motivo duma distribuição de prémios concedidos pela Câmara. Com presença e protagonismo do Círculo Católico, participaram o jesuíta Padre Emelgo, o mestre e cronista do Círculo, José Maria Moar, e o alunado do centro que realizou uma exposição de trabalhos e vários números demonstrativos da sua formação, incluindo a interpretação dum alalá e uma moinheira bailada, premiadas no certame das Festas do Apóstolo. A festa foi animada pelo grupo de plectro dirigido por Eulógio Gallego em ausência de Manuel Valverde. Estrearam um passodoble dedicado à escola e outras obras que não se especificam. Em nota final, nos agradecimentos, Moar mencionava o nosso guitarrista e uma relação dos componentes do grupo de plectro:

Don José María y don Luís Iglesias Nine, don Fernando y don Constantino Barcia Veiras, don Daniel y don Leopoldo Cebreiro, don Jesús Cajaraville, don Isolino López García, don José y don Santiago Villar, don Aurelio Villegas, don Enrique Barral Barreiro, don Ezequiel Vázquez y don Camilo Estévez.

O facto de ter substituído o maestro Valverde indicava o talento e a consideração que Eulógio Gallego Martinez tinha como músico dentro do Círculo Católico.

Velada ‘regionalista’

O literário cronista Moar (1903c) descreve o recital de música e poesia organizado pelo Círculo o domingo, 6 de dezembro, e diz: «Puede afirmarse de la velada de anteayer que fué regionalista».

Retrato da orquestra de plectro Antoniana de Compostela. Fonte: El Eco Franciscano, 01/09/1913. © 2023 by Isabel Rei Samartim.Retrato da orquestra de plectro Antoniana de Compostela. Fonte: El Eco Franciscano, 01/09/1913. © 2023 by Isabel Rei Samartim.

O motivo para o qualificativo “regionalista” era que a maior parte das obras e poemas recitados eram de autores galegos, o qual era visto como algo exótico nos ambientes conservadores. Atuaram o orfeão do Círculo, dirigido por Valverde, que interpretou o Ave Maria de Prudêncio Piñeiro e a Alborada de Pasqual Veiga. O autor da crónica informava de que dous galegos tinham chegado da Argentina para conhecer o maestro Valverde, autor de Ay, esperta, adourada Galicia…!. Também intervieram os pianistas Lens e Brage que entre outras obras para piano interpretaram Serantellos, de Lens Viera. E na guitarra:

con sólo la mano izquierda, unos bonitos armónicos comparables únicamente á los de Juez, el seminarista señor Gallego, dándonos á conocer sus composiciones, la muiñeira «Aturuxos» y «Remembranzas», sentido capítulo de la historia de su corazón.

Referia-se ao eminente guitarrista cego Esteban Juez Ferrer, que tinha tocado muito na Galiza durante o ano 1902 e janeiro de 1903.

O dia 19 de fevereiro de 1904, Eulógio Gallego Martinez, aluno externo de 2º ano no Seminário compostelano, apresentava uma solicitude para ordenar-se de Menores e Sub-diaconado (Arquivo Diocesano de Compostela, 1904). Cinco dias antes fazia a mesma solicitude no seminário de Ourense. O documento compostelano incluía um parecer favorável do pároco de Sta. Maria a Real de Sar, António Calvo Troiteiro. Mas como sabemos, nenhuma das duas solicitudes foram bem-sucedidas.

Em 6 de maio de 1904, o cronista José M.ª Moar publicava a continuação do artigo sobre o último recital músico-poético organizado pelo Círculo Católico em que participou o cantor Sr. Perez Deza. A respeito de Eulógio Gallego deixou dito:

Nada dije entonces del guitarrista don Eulogio Gallego y Martinez, ni de su peculiarísima habilidad para producir en los instrumentos de cuerda, apoyando suavemente el dedo sobre las divisiones de la misma, esos sonidos tan agudos y dulces que la Música llama armónicos. Y es que híceme ya lenguas de sus talentos musicales en otras ocasiones y suplicando al lector que dé aquí por reproducidos tales elogios, réstame solamente añadir que el Círculo, sabiendo que el señor Gallego tocaba allí por la vez última, dado que éste va á tener la privilegiada dicha de ordenarse de sacerdote, le despidió con una entusiasta ovación, haciéndole tocar su compendio de cantos regionales «¡Viva Galicia!», una marcha militar y una pieza de acordes, de las que es autor, y la última de las cuales ejecutó teniendo la guitarra sobre la cabeza y luego sobre la espalda. Yo me despido también del músico y me apresto á besar la mano al presbítero. Tanto pierde el Círculo un elemento trabajador y valioso, como tanto es de esperar que gane el ministerio sacerdotal.

Finalmente a tal ordenação não chegou a realizar-se. Depois, o cronista relatava a atuação do orfeão e do grupo de plectro do Círculo. Cada agrupamento interpretou três obras, sendo uma delas El Amanecer, de Eslava, com uma breve, mas interessante resenha sobre Manuel Valverde:

Al lado de esta rondalla tienen que ser nada las reuniones de mozos que tocan y cantan por la noche en las calles de Aragón. Y tanto de ella como de la masa coral creo que sean prolijos los encomios con decir que las dirije don Manuel Valverde, el discípulo predilecto de Trallero; aun muchacho, primer premio de violín en Pontevedra; que desde que fundó el «Orfeón Santiagués» vino recogiendo laureles ya en éste, ya en la dirección del premiado en los primeros juegos florales de esta ciudad; del Gallego, del que tomó parte en el Centenario de Calderón de la Barca; del «Valverde», premiado en Santiago, Pontevedra, Coruña y Vigo, que ensalzaron en este último punto Cánovas, Elduayen y el Duque de Meiro; como igualmente, del que asistió á la traslación de las cenizas de Rosalía Castro, etc. Por cierto que tanto se admira al señor Valverde en la República Argentina que acabo (y esto sea dicho inter nos), de extinguir el empeño en que me comprometieran y obligaran de allá, haciendo una biografía de nuestro don Manuel, la cual con su retrato y su balada «Un Xuramento» va á publicar el «Centro Gallego» de la gran capital bonaerense.

De novo uma longa e literária crónica era publicada por Moar (1904b) na Gaceta, em que relatava um recital na mansão dos Duques de Medina de las Torres, organizado pela Câmara de Comércio compostelana, cujo secretário na altura era Santiago Martinez Muñoz. Entre os artistas habituais intervieram Eulógio Gallego junto com o que poderia ser um companheiro de turma, Senén Bastida Alaguero, provavelmente nascido em 1881 na família dos Bastida Alaguero de Valhadolid, cujo irmão Justino figuraria anos mais tarde como Depositário na Câmara Municipal golpista da Estrada (El Emigrado, 1936). O cronista não especificou se se tratava dum grupo de voz e guitarra ou dum duo de guitarras, nem as obras que tocaram.

Em 7 de janeiro de 1905 El Correo de Galicia publica uma notícia do ato académico com recital de música e poesia que organiza o Seminário compostelano com participação de Eulógio Gallego Martinez, apresentado como guitarrista e diretor do grupo de plectro do centro. Este agrupamento tocou um passodoble, uma serenata lusitana e uma moinheira. Eulógio Gallego também tocou a solo uma obra sem especificar e partilhou o evento com o coro do Seminário dirigido pelo professor de Canto Gregoriano, Manuel Fernandez [Alonso].

Manuel Fernandez Alonso (m. 1947) foi primeiro organista da catedral compostelana até 1912 e professor de Canto Gregoriano no Seminário do mosteiro beneditino de S. Martinho Pinário. Então, parece que o maestro Valverde tinha rematado as suas atividades no Círculo e no seu lugar deixou Eulógio Gallego como novo titular da direção do grupo de plectro, e um novo titular do orfeão, Manuel Fernandez, professor de Canto Gregoriano no Seminário.

Em 15 de maio de 1905, achamos a segunda solicitude de Eulógio Gallego Martinez para ordenar-se Sub-diácono, o que evidencia que a anterior não foi bem-sucedida (Arquivo Diocesano de Compostela, 1905). Nela está o seu endereço em Compostela: Rua de São Pedro, 68, a naturalidade de Ginzo de Límia, e a resposta do Reitor do Seminário Conciliar Central, Emilio Macia Ares denegando a solicitude por o aluno ter sem aprovar a matéria de Canto Gregoriano. Uns dias mais tarde, em 22 de maio, voltava Eulógio Gallego a solicitar a ordenação de Prima Tonsura e Menores em Ourense, ordenação que apesar dos bons informes de Compostela e do seu tutor em Ginzo, não lhe foi concedida.

Teria havido algum problema entre o nosso guitarrista e o professor de Canto Gregoriano, organista da catedral, que fora também companheiro de recitais, posto que essa foi a única matéria que lhe impediu a ordenação? Resulta estranho que uma pessoa com tantas qualidades musicais reprovasse precisamente aquela matéria relacionada com a música, o que induz a pensar que tivessem existido motivos de outra classe. Seja como for, ele não conseguiu ordenar-se e aqui perdeu-se a pista na Galiza do espetacular guitarrista limiano Eulógio Gallego Martinez.

O pesquisador Ramom Pinheiro Almuinha (2008, p. 99) registou um Eulógio Martinez instalado como professor de guitarra na Havana em 1906. Se forem a mesma pessoa, poderíamos pensar que, desanimado da carreira eclesiástica por não ter conseguido a ordenação, a morar longe da sua vila natal e quem sabe se com dificuldades para subsistir em Compostela, o nosso guitarrista teria escolhido o mesmo caminho que tantos e tantos galegos da sua época: a emigração.

A hipótese da emigração de Eulógio Gallego para a Havana explicaria a sua ausência na Hemeroteca a partir de 1905 e também a falta de referências às suas partituras que, à espera de novas informações, devemos considerar perdidas. 

Relação provisória de obras compostas e interpretadas por Eulógio Gallego Martinez

Música composta para guitarra:
  1. Aturuxos.
  2. Remembranzas.
  3. Suite «Viva Galiza!».
Música interpretada (ademais da anterior):
  1. Marcha de Luis XVI.
  2. La diana.
  3. La retreta de Laurent de Rillé.
  4. Malagueña de Vatergenr. [sic, ?]
Como diretor do grupo de plectro do Círculo Católico:
  1. Passodoble.
  2. Serenata lusitana.
  3. Moinheira.

São também interessantes as informações sobre Manuel Valverde, a sua direção e docência musical em coros e grupos de plectro. A relação de obras interpretadas nestes eventos do Círculo Católico de Obreros (1903-1904) são:

  1. Un xuramento, letra de Manuel Martinez, música de Manuel Valverde.
  2. Passodoble sobre El Pillo e Mariquiña, de Manuel Valverde.
  3. Ai esperta adourada Galicia!, de Manuel Valverde.
  4. Ave Maria de Prudencio Piñeiro.
  5. Alborada de Pascual Veiga.
  6. Airiños d’a terra.
  7. Um fragmento de El Bateo de Chueca. Gavota del Bateo (podem ser a mesma).
  8. Ares malaguenos.
  9. Abertura de Agua, azucarillos y aguardiente, de Chueca.
  10. La canción de abril, de Laurent de Rillé.
  11.  El Amanecer, de H. Eslava.
Referências citadas
  1. Almuinha, Ramom Pinheiro. (2008). A La Habana quiero ir. Compostela: Sotelo Blanco.
  2. Arquivo Histórico Diocesano de Compostela. (1904). Documentos. Cota: 1062-651/31.
  3. Arquivo Histórico Diocesano de Compostela. (1905). Documentos. Cota: 1062-651/37.
  4. F. P. D. (1903). Fiesta escolar. Gaceta de Galicia. Compostela: 12 de agosto, p. 1.
  5. Freitas, Leslie. (2018-2019). Manuel Valverde Rey: Una vida de decicación a la Capilla de Música de la catedral de Santiago de Compostela (1865-1929). Estudios mindonienses, 33, pp. 347-363.
  6. Moar, José Maria (1903a). En el Círculo Católico. Gaceta de Galicia. Compostela: 24 de maio, p. 1.
  7. Moar, José Maria. (1903b). Gaceta de Galicia. Compostela: 14 de junho, p. 2.
  8. Moar, José Maria. (1903c): Erráticas. Gaceta de Galicia. Compostela: 10 de dezembro, p. 3.
  9. Moar, José Maria. (1904a). De re artística. Gaceta de Galicia. Compostela: 6 de maio, p. 2.
  10. Moar, José Maria. (1904b). Mensajera. Gaceta de Galicia. Compostela: 28 de maio, p. 1.
  11. Rei-Samartim, Isabel. (2017). O guitarrista limiano Eulógio Gallego Martinez (Ginzo de Límia, 02-09-1880 - ?). Historia de Xinzo (blog): 21 de julho.
  12. Rei-Samartim, Isabel. (2020). A guitarra na Galiza. Tese de doutoramento. Universidade de Santiago de Compostela.
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