Ópera y Teatro musical

Marcos Portugal, o compositor luso-brasileiro 

Ricardo Bernardes
viernes, 4 de agosto de 2023
Marcos Portugal, grabado de Charles-Simon Pradier © by Dominio Público Marcos Portugal, grabado de Charles-Simon Pradier © by Dominio Público
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Marcos Portugal tem sido uma figura controversa na historiografia musical luso-brasileira, especialmente a partir da segunda metade do séc. XIX, momento a partir do qual houve a necessidade de forjar a identidade nacional do Brasil imperial. Especialmente no aspecto cultural, tal deu-se pela negação da herança lusitana, que passava a ser vista como retrógrada e mesmo indesejável, por representar a estética do colonizador e por não trazer elementos de uma nova modernidade baseada nos modelos franceses e germânicos de organização social, da literacia, do pensamento e das artes. 

Havia a necessidade de heróis nacionais, “genuinamente brasileiros”, num processo que teve o seu auge no Movimento Modernista Brasileiro de 1922. Nessa altura passou-se a questionar tudo o que fosse europeu e, no campo musical, a vitória dessa linha de pensamento já podia ser prevista a partir do último quartel dos anos oitocentos, período dos escritos de crítica musical e estética do Visconde de Taunay. Procurou-se exaltar a figura de músicos autóctones, como José Maurício Nunes Garcia (1767 – 1830) e Antônio Carlos Gomes (1836 – 1896), em detrimento de figuras como, por exemplo, Marcos Portugal. Tal ideário centrava-se na pretensa disputa de poderes entre músicos portugueses e brasileiros na Capela Real de música de D. João VI, no Rio de Janeiro, e deixava-se de lado, inclusivamente, o facto de Marcos Portugal se ter tornado também brasileiro no fim da sua vida, quer por fidelidade ao seu aluno e primeiro Imperador do Brasil, D. Pedro de Alcântara, quer por adesão aos preceitos promulgados na primeira Constituição do Brasil em 1824.  

Marcos Portugal, portanto, morre luso-brasileiro em 1830 e a sua música, especialmente a sacra, continua a ser tocada e admirada por todo Portugal e Brasil durante todo o séc. XIX, como pode ser atestado nos escritos de Araújo Porto-Alegre.  

A sua produção operática, no entanto, caiu em rápido esquecimento, processo iniciado ainda no final da sua vida, com a ascenção de uma estrela internacional como Gioacchino Rossini (1792 - 1868), que revolucionou a ópera cómica italiana com os estrondosos sucessos de Il barbieri de Seviglia (1816) e La Cenerentola (1817). No entanto, é importante sublinhar que não haveria Rossini sem Marcos Portugal e a geração de compositores vista como o “elo perdido” entre Mozart e o grande maestro de Pesaro. Zingarelli, Spontini, Fioravanti, Nasolini, Paer e Portugal desenvolveram as bases para a ópera italiana do séc. XIX, especialmente a cómica, ao inserirem elementos como a comicidade onomatopaica, os contrastes e as “cenas de estupefação”, aliados a um virtuosismo vocal habitualmente relacionado com a ópera séria.   

Nesse mesmo contexto, Marcos Portugal também adapta essas obras, que tanto sucesso fizeram em Itália, para a realidade do teatro-musical português, com os seus entremezes em língua nacional, criando novas versões portuguesas dos seus triunfos em Itália. Assim se deu com “O Basculho de Chaminé”, de 1793, e com “As damas trocadas”, de 1797. Acontece, porém, que, de facto, não conhecemos a música de Marcos Portugal. As suas óperas são desconhecidas tanto do público quanto dos investigadores que, por mais que possam tirar conclusões a partir da análise das partituras, não podem ter o aprofundamento que só o estudo prático para a execução musical viva proporciona.   

Falta-nos perguntar e, se possível, trazer mais alguma luz às possíveis respostas: o que fez esse compositor ser tão famoso em toda a Europa e também no Brasil, sendo a sua música tocada nos principais centros musicais do mundo, ainda que ele mesmo tenha viajado pouco? As suas obras eram levadas pelos grandes cantores de relevo internacional a quem dedicou muitos de seus papéis, sendo continuamente representadas ou as suas árias apresentadas em recitais.  

Finalmente, temos mais uma vez a oportunidade de trabalhar uma das suas obras em português, após a estreia moderna do Basculho de Chaminé no Teatro Nacional de São Carlos, em 2012, a propósito dos 200 anos do nascimento do compositor, obra que voltámos a dirigir mais três vezes no Brasil. Com As damas trocadas, a questão do cantar em português é ainda mais instigante pelo elenco de vários “falares” da língua, com cantores naturais de Portugal, Brasil e Colômbia, com um resultado de imensa riqueza fonética. Temos hoje o raro privilégio de redescobrir as óperas de Marcos Portugal. Aos poucos e ano a ano, encontraremos o frescor e a beleza da sua música, de um melodismo fácil e agradável, de um grande sentido de teatralidade, que faz com que as suas obras sejam verdadeiras jóias meritórias do interesse de portugueses e brasileiros em se reconectarem e adoptarem para si esta produção e este compositor que representam o conceito da luso-brasilidade. 

 

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