Vox nostra resonat

A guitarra na Galiza

Música da Catalunha e Valência na Galiza (1)

Isabel Rei Samartim
jueves, 8 de febrero de 2024
Ferran Sors. Litografía de Godofredo Engelmann.  © Dominio Público / Wikipedia Ferran Sors. Litografía de Godofredo Engelmann. © Dominio Público / Wikipedia
0,0015796

A quantidade e qualidade dos fundos galegos para guitarra ainda não foi devidamente medida. Neste artigo tratamos brevemente dum segmento das obras que compõem o corpus do século XIX, como são as compostas por guitarristas ou músicos catalães e valencianos. 

No artigo anterior publicado no Mundoclásico.com apresentaram-se alguns intérpretes dessa nacionalidade que tocaram na Galiza, agora veremos se as obras que aparecem nas partitotecas históricas galegas se correspondem com essas visitas, e se, além dessa correspondência, havia interesse por mais autores.

Números e distribuição das obras nos fundos galegos

Pieza enlazada

Dentre os fundos galegos analisados achamos 19 autores e 57 obras para ou com guitarra compostas por guitarritas catalães e valencianos. A distribuição dessas obras é a seguinte: o mais numeroso é o Fundo Pintos Fonseca, da Ponte Vedra, com 11 autores e 22 obras diferentes. Depois segue o fundo guitarrístico do Arquivo Canuto Berea, da Corunha, com 7 autores e 13 obras. A seguir vêm o Fundo Valladares, da Estrada, com 4 autores e 6 obras, e o Álbum de Fernando Torres Adalid, da Corunha, com 3 autores e 16 obras. E fechando a contagem está o Fundo Ínsua Yanes, de Ortigueira, com 1 autor e 2 obras e o Caderno do Francês, da Ponte Vedra, com 1 autor e 1 obra.

Quase todas as obras são diferentes, havendo unicamente três coincidentes: a canção para voz e guitarra intitulada Una Sombra, de Rafael Botella Serra (Alcoi, 1814 – Vitória, 1982), que aparece no Fundo Valladares e no fundo guitarrístico do Arquivo Canuto Berea. Nesses mesmos arquivos coincide também a canção para voz e guitarra intitulada El Caramba, de Ramon Carnicer i Batlle (Tàrrega, 1789 – Madrid, 1855). E a terceira coincidência dá-se com a obra Grande andante de Josep Costa Hugas (Torroella de Montgrí, 1826-1881), que aparece no Fundo Pintos Fonseca e também no de Ínsua Yanes. Estas coincidências não indicam qualquer relação especial entre estes fundos, unicamente evidenciam que os interesses musicais eram comuns entre @s guitarristas galeg@s com obras que eram bem conhecidas no seu tempo.

Autores catalães e valencianos

Retrato de Josep Melchor Gomis, por Gonzalo Salvá. © Dominio Público / Wikipedia.Retrato de Josep Melchor Gomis, por Gonzalo Salvá. © Dominio Público / Wikipedia.

Os dezanove autores, todos homens e nem todos guitarristas, presentes nos fundos galegos são os três já nomeados, Rafael Botella Serra, Ramon Carnicer i Batlle e Josep Costa Hugas, mais o irmão de Ramon, Miguel Carnicer i Batlle, Ferran Sor i Muntades (Barcelona, 1778 – Paris, 1839), Josep Melchor Gomis (Ontinyent, 1791-1836), Benito Monfort (Valência? 1801-1871), Josep Brocá Codina (Reus, 1805 - Vila de Gràcia, 1882), Santiago Marsanau (1805-1882) que era filho de pai catalão ainda que nasceu em Madrid, Baltasar Saldoni i Remendo (Barcelona, 1807 - Madrid, 1889), o pianista e compositor Antonio Mercé Fondevila (Lleida 1810-1976), Josep Ferrer Esteve (Torroella de Montgrí, 1835 - Barcelona, 1916), Gaspar Sagreras (Malhorca, 1838 – Buenos Aires, 1901), Miguel Mas Bargalló (Reus, 1846 - Barcelona, 1923), o pianista e compositor Isaac Albéniz (Camprodon, 1860 – Cambo-les-Bains, 1909), Antonio Crespí Mas (Malhorca), Joan Nogués Pon (Barcelona, 1875-1930), Josep Sirera Prats (1884 - 1931) e [Manuel] Pere Nebot, cuja família por diversas gerações tocou na Galiza e teve um neto de nome Santiago por ter nascido em Compostela.

Os que aparecem em vários fundos são seis: os já mencionados Rafael Botella, Ramon Carnicer e Josep Costa, mais Miguel Carnicer, Baltasar Saldoni e Ferran Sors. Nem sempre coincidem as obras, mas sim a presença desses autores, o que pode servir como indicador do conhecimento que deles se tinha na Galiza do século XIX.

Algumas obras em destaque

Valsas de [Miguel] Carnicer no Álbum de Fernando Torres Adalid. © 2024 by Isabel Rei Samartim.Valsas de [Miguel] Carnicer no Álbum de Fernando Torres Adalid. © 2024 by Isabel Rei Samartim.

Como no espaço deste artigo não é possível comentar cada uma das cinquenta e oito obras, nem reparar como é devido nos autores, escolhemos alguns dados que nos chamaram à atenção e podem ser de maior interesse para futuras pesquisas. Mais informação pode achar-se nos catálogos de cada fundo galego publicados como anexos à tese A guitarra na Galiza.

A obra Flor de Aragon, arranjada para guitarra por Tomás Damas e publicada por Romero em 1876, faz parte do Fundo Pintos Fonseca, conservado no Arquivo do Museu da Pontevedra. Benito Monfort, compositor da zarzuela Flor de Aragon, chamou-nos à atenção por ser desconhecida a sua atividade musical. Sougez e Perez (2003, pp. 310-311) descrevem-no como homem pecunioso de origem valenciana, residente na França e fotógrafo ativo ca. 1851. Em Toulier (2010, p. 259), referido como Raimundo Benito de Montfort (1801-1871), vemos que foi um mecenas das artes e da arquitetura, sendo um dos patrocinadores da construção do Casino Bellevue em Biarritz. E numa procura pelo catálogo da BNE pode verse como numerosos volumes referem uma editora valenciana de nome Benito Monfort ativa antes e durante o século XIX.

Canção Los defensores de la patria de Sors e Arriaza no Caderno do Francês. © 2024 by Isabel Rei Samartim.Canção Los defensores de la patria de Sors e Arriaza no Caderno do Francês. © 2024 by Isabel Rei Samartim.

A surpresa é ver que no mesmo ano da morte de Benito Monfort, 1871, estreia-se a sua zarzuela da que Tomás Damas toma a jota que arranjou para guitarra. Na BNE acham-se as versões, todas publicadas em 1871 por Casimiro Martin para piano, em redução do próprio Monfort, também para banda militar, para duas flautas ou flauta e violino, e a partitura para guitarra de Damas. A partitura do fundo Pintos Fonseca é a republicada por Romero cinco anos mais tarde com as pranchas de Martin. É possível que tenha havido vários Benito Monfort/Montfort de diferente origem, ou vários membros da mesma família dedicados à impressão, às artes e à música?

O mesmo Fundo Pintos Fonseca chama à atenção pela quantidade de obras de guitarristas catalães que reúne. Há nove obras de Josep Ferrer, duas de Josep Brocá, uma de Josep Costa Hugas, uma de Josep Sirera Prats, e uma de Joan Nogués Pon. As nove obras de Ferrer são as conhecidas: De noche en el lago, Dos Tangos, Elegia fantástica, Los encantos de Paris, Impresiones juveniles, Veladas íntimas, Charme de la nuit. Mais duas obras manuscritas de dous noturnos que não achamos entre as mencionadas por Mangado (1998).

De Brocá estão: Recuerdos juveniles e Albores. De Costa Hugas há dous arranjos: Sinfonia de la ópera el Barbero de Sevilla de Rossini e Grande andante della 4ª sinfonia de Mendelssohn. De Sirera Prats está a Gran marcha de la salida de Ernesto en la ópera del Pirata de Bellini, que se anuncia à venda no Diario de Avisos de Madrid (1830). E de Joan Nogués Pon, um arranjo da Sonata n.º 3 de Beethoven. Todas estas obras apresentam um nível técnico avançado e uma boa qualidade compositiva, características procuradas pelo nosso guitarrista Javier Pintos Fonseca.

O Andante da Sonata op. 14 n.º 2, registado como o número 124 do mesmo Fundo Pintos Fonseca, foi arranjado e manuscrito por Antonio Crespí Mas e dedicado a Javier Pintos em setembro de 1915. Na última página aparece a assinatura e a dedicatória:

Perpetrado expresamente para el fervoroso y distinguido beethoveniano, Sr. D. Javier Pintos, en acción de gracias de su amigo y servidor Antonio Crespí.

O que sabemos deste guitarrista é que foi professor catedrático de Ciências da Agricultura no Liceu da Ponte Vedra. Foi pai de Maria Alicia Crespí Gonzalez, nascida na Ponte Vedra, primeira mulher catedrática numa Escola Superior na Espanha. Ao serem coetâneos e habitarem na mesma cidade, era claro que Pintos e Crespí deviam conhecer-se e tratar-se, pois Pintos Fonseca estava no centro da atividade musical da cidade e também era bem conhecido dentro do mundo bancário e administrativo.

Listagem comentada de obras

Para concluir, deixamos uma listagem das obras compostas no século XIX por guitarristas e outros músicos catalães e valencianos que se conservam nos fundos galegos para guitarra, com o número do catálogo correspondente.

Ramon Carnicer i Batlle (Tàrrega, 1789 – Madrid, 1855):

  1. - El caramba, para voz com piano e guitarra. Cópias manuscritas por um copiador anónimo. Aparecem no Fundo Valladares (nº 106) e no fundo guitarrístico do Arquivo Canuto Berea (nº 16).
  2. - La jitanilla. Cópias anónimas no fundo guitarrístico do Arquivo Canuto Berea (nº 25), para voz com piano e guitarra, ca. 1831.
  3. - El chairo. Cópias anónimas no fundo guitarrístico do Arquivo Canuto Berea (nº 29), para voz e guitarra, 1833.
  4. - La criada. Cópia anónima no fundo guitarrístico do Arquivo Canuto Berea (nº 39), para voz e guitarra, ca. 1836.
  5. - El nuebo serení. Partitura impressa no fundo guitarrístico do Arquivo Canuto Berea (nº 55), da Colección General de canciones españolas y americanas con acompañamiento de piano forte y guitarra. N.º 12, publicada por Bartolomé Wirmbs em 1825, prancha 316.
  6. - El currillo. Cópias anónimas no fundo guitarrístico do Arquivo Canuto Berea (nº 57), para voz com piano e guitarra, ca. 1835.
  7. - El no sé. Cópias anónimas no fundo guitarrístico do Arquivo Canuto Berea (nº 65), para voz com piano e guitarra, 1836.

Duo de "Jugar con fuego", arranjado por Miguel Carnicer, 1854, no Fundo Pintos Fonseca. © 2024 by Isabel Rei Samartim.Duo de "Jugar con fuego", arranjado por Miguel Carnicer, 1854, no Fundo Pintos Fonseca. © 2024 by Isabel Rei Samartim.

Miguel Carnicer i Batlle (Tàrrega? - ?):

  1. - Variaciones del pirata. Copiada no Álbum de Fernando Torres Adalid (nº 1), é a obra que abre o Álbum. Pela versão impressa conservada na British Library de Londres sabemos que a peça estava dedicada à notável guitarrista amadora Rita Camps de Moreno. No Fundo Valladares (nº 94) e no Pintos Fonseca (nº 84) acham-se referências à mesma ópera.
  2. - Walses. Copiadas no Álbum de Fernando Torres Adalid (nº 31). São cinco valsas.
  3. - Gran sinfonia en la opera del maestro Bellini Norma. Copiada no Álbum de Fernando Torres Adalid (nº 39). A ópera estreou-se em Madrid em 1834. A outra obra deste guitarrista publicada por Suárez-Pajares é a Cavatina de contralto en el primer acto de Ipermestra, a ópera de Saldoni de que este Álbum contém umas Variaciones en la opera Ypermestra (nº 43). O arranjador destas variações é desconhecido, mas achamos possível que Carnicer não reparasse unicamente na cavatina e fizesse arranjos de outras partes da ópera de Saldoni.
  4. - Duo de la mitad en la zarzuela de Jugar con Fuego. Cópia anónima no Fundo Pintos Fonseca (nº 125), com data de 1854. Para duas vozes e guitarra. Música de Barbieri (1823-1894) e letra de Ventura de la Veja (1807-1865). 7 páginas. Incompleta. A zarzuela estreou-se em 1851.

Ferran Sors i Muntades (Barcelona, 1778 – Paris, 1839):

  1. - Los defensores de la Patria. Copiada no Caderno do Francês (nº 52), para voz e guitarra com letra de Juan Bautista Arriaza (1770-1837). Foi publicada em Sevilha, na Gazeta del Gobierno em 1809, para voz e piano (Jeffery, 2017, pp. 157-166). Esta versão é um arranjo para voz e guitarra que reproduz a melodia principal e um acompanhamento, que é uma adaptação da mão esquerda do piano.
  2. - Las quejas de Maruja. Partitura impressa no fundo guitarrístico do Arquivo Canuto Berea (nº 63). Publicada por Carrafa entre 1831-1859. Prancha: B. (1002) C.
  3. - Variaciones de D.n Fernando Sors. Copiada no Álbum de Fernando Torres Adalid (nº 10). É a fantasia sobre o tema de Paisiello Nel cor più non mi sento, op. 16. Datada em 1823.
  4. - Variaciones sobre el tema Ó Cara armonia por D.n F. Sors. Copiada no Álbum de Fernando Torres Adalid (nº 11). A partitura impressa foi publicada em Londres, em 1821, dous anos depois da estreia londinense da ópera de Mozart A flauta mágica em 1819 (Jeffery, 2004, v. 1, pp. xv-xvi).
  5. - Gran siciliana compuesta por D.n Fernando Sors. Copiada no Álbum de Fernando Torres Adalid (nº 16). Trata-se da terceira obra incluída no op. 36 intitulada Trois pièces de société publicado em Paris em 1828 (Jeffery, 2004, v. 5, p. vii). Contém uma Marcha anotada a seguir no Álbum, nas pp. 39-40, em Ré m e 2/4, incluída na Siciliana como uma segunda parte da mesma obra.
  6. - Celebrado wals de D.n Fernando Sors. Copiada no Álbum de Fernando Torres Adalid (nº 34). É o número 6 do op. 45, Voyons si c'est ça, publicado ca. 1831 (Jeffery, 2004, v. 6, pp. 21-22).
  7. - Andantino, Wals, Andante pastoral, Masurca, Andante e Galop. Copiadas no Álbum de Fernando Torres Adalid (nº 48 a 53). São as seis primeiras peças do op. 32 publicadas antes de 1839 (Jeffery, 2004, v. 4, pp. 72-78).
  8. - Moderato cantabile p.r D.n Fernando Sors. Copiada no Álbum de Fernando Torres Adalid (nº 66). É a primeira peça do op. 33, Trois pièces de société, dedicadas a Mlle. Athénaïs Paulian (Jeffery, 2004, v. 5, pp. 1-8).
  9. - Andante por D.n Fernando Sors. Copiada no Álbum de Fernando Torres Adalid (nº 67). É a segunda peça do op. 33, Trois pièces de société, dedicadas a Mlle. Athénaïs Paulian (Jeffery, 2004, v. 5, pp. 1-8).

Continua a relação no seguinte artigo.

Referências citadas

  1. Diario de avisos de Madrid. (1830). Música. Madrid: 16 de julho, p. 4.
  2. Jeffery, Bryan. (2004). Fernando Sor. The New Complete Works for guitar, 11 v. (2.ª ed). Budapeste: Tecla Editions.
  3. Jeffery, B. (2017). España de la guerra. The spanish political and military songs of the war in Spain 1808 to 1814. London: Tecla Editions.
  4. Mangado Artigas, Josep Maria. (1998). La guitarra en Cataluña. Londres: Tecla Editions.
  5. Rei-Samartim, Isabel. (2020). A guitarra na Galiza. Tese de doutoramento. Universidade de Santiago de Compostela.
  6. Sougez, Marie-Loup e Perez Gallardo, Helena. (2003). Diccionario de historia de la fotografía. Madrid: Cátedra.
  7. Toulier, Bernard. (Dir.) (2010). Villégiature des bords de mer. Paris: Éd. du Patrimoine, Centre des monuments nationaux.
Comentarios
Para escribir un comentario debes identificarte o registrarte.